quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

A PANTERA 6.


A PANTERA 6.

ROGEL SAMUEL

Acrescentar eu devo que prosseguindo mudos naquela direção o dia inteiro do pico ainda estávamos mesmo assim distantes do anoitecer; e não mais senti a presença negra da pantera nos perseguindo, quando os olhos ao céu dirigindo vimos clarões brilhar como relâmpagos mudos e lumes dois ou três que a terra estremeciam e aí vejo que de Jara os olhos se assustaram, e ligeira logo se fez. E logo nos deparamos com uma pequena planície onde havia montículos de terra que pensei de serem túmulos rasos.
- Mas “não”, disse-me Jara (pois se fossem os animais já teriam descobertos), e encontro sacolas de ouro e mochilas com armas e vestimentas, sapatos e botas e comida envolvidos em plásticos.
Eu me aproprio das utilidades, visto-me de casaco e botas, encho um saco de pequenas pepitas de ouro, armas e um cantil.
Ao que um terrível urro logo ouvimos da pantera que chegava num toque que peguei nas armas ao que Jara me conteve.
- Pare, ela não nos atacará.
E já vestida ela de soldado e armada de faca e de fuzil me parecia protegida.
E depois de revistar outros montículos de terra de umas mochilas nos apropriamos, assim com Jara partimos e eu a segui.
Logo nos primeiros passos sentimos o peso da carga recebida, mas mesmo assim Jara e eu entramos na floresta que rara se fazia, e caminhamos por alguns dias, subindo a encosta da montanha lentamente e passando ao mais alto, mas Jara revelava que aqueles sítios todos antes conhecera.
Do medo a cor que o gesto me alterara ao ver que aparecia, na ponta da planície, marchando célere em nossa direção, aquela pantera.
Mas Jara, como escutando, espreita e me diz:
”Ela quer ela nos atalhar e nos levar nesta direção”.
E Jara aponta aquela direção antiga e diz:
 - “É mister vencer nesta porfia”, - e da pantera a marcha acelerada nos adiantou e de lá saímos, buscando o alto da montanha, onde é raro o aparecer de algo, e um ensejo de nos fazer guiar pelo caminho que entre abismos nos comunica.
Sim, ali, porém, já fui que a inimiga pantera nos constrangia a fazer essa jornada.
Que pensei, e pensando disse para Jara, que agora poderíamos fazer, para das sombras nos tirar dos seus precitos, com as armas de que agora dispúnhamos, poderíamos a fera abater a tiros:
-“Esta é a pior solução” - dizendo ela, voltou-se para mim – e usando uma expressão nova:
- “Esforça-te, querido, eu também sei o caminho que da grande batalha vai nos afastar”.
E acrescentou:
 – “Este paul que a fera cheira é o circundo da guerra e o tormento que de entrar já não podemos sem ira”
Disse, – e não me lembro o que mais disse, o pensamento e o olhar pondo no cimo chamejante que os olhos me prendia, vi que estava atenta, pois de lá longe o aspecto de horripilantes explosões sucessivas que o chão estremecia, que por isso com as unhas a pantera a terra arranhava e com suas patas o o solo rebatia e com tal brado que à guerreira me acerquei de pavor cheio.
Jara volta a face de fúlgida luz o rosto farto, conserva a calma a encarar-me, transformando-se numa sorte de deusa e as mãos juntando às minhas mãos e os olhos no fundo dos meus olhos a amparar-me dessa arte, e logo um tufão distante fremiu impetuoso que de ardores explosivos se cercando, sem pausa fere a terra, que se abria como em leques de sonoridades entre nuvens de pó, alevantando o infinito e após o mundo se cobrindo de um estranho silêncio, mudo e quieto, mundo derradeiro e deserto que vem da insânia rara.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

A PANTERA 5 - ROGEL SAMUEL

A PANTERA 5 - ROGEL SAMUEL

“E então” – disse-me ela – “vou em busca de alguma fruta”. Mas da pantera o suspiro rouco ouvindo: “Não” – me diz – “se desvaneça o susto. Ela nada fará contra você, em si mesma consome o seu furor injusto” - mas de repente, com uma onda do mar crescendo e se embatendo, quebrando-se espumante, assim uma turba de aves negras se agiganta, aves em cópia, quase do céu escurecendo parte, nunca vistas antes, fardos de um lado e outro em grita ingente, rolando com suas asas ofegantes, como se de um grande mal fugissem e em volteios não soubessem para que rumo fugir, assim no teto em círculo volteando que iam ao ponto oposto de todo o espaço nos semicírculos: - “Que são?” – a Jara perguntei, “que razão há para aqui estarem?” E ela respondeu: -“Não sei, de algo muito terrível estão fugindo!”.
Até que aquilo passou, anoiteceu e numa lapa fomos dormir.
No dia seguinte me acordou ela dizendo: “Desçamos agora e vamos esquivos que nossa demora aqui é perigosa”. E tiramos dali nossos passos da árvore onde nos abrigamos até uma fonte onde pudemos beber que de uma fenda as águas brotavam como se vinda de alguma torrente interna e a sede saciamos e ao longo do nosso curso prosseguimos por um caminho perigoso nos movendo, até que deparamos uma lagoa junto à encosta do penhasco e um triste ribeiro, que notamos dali seguia para um pântano, onde a tristeza parecia morar, e assim atravessamos e voltamos a descer o que seria uma verde encosta em direção a um lugar mais fresco e longínquo daquela montanha.


segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

A PANTERA 4 - ROGEL SAMUEL

A PANTERA 4 - ROGEL SAMUEL

Chegamos junto, chegamos a uma íngreme pedra de umas grandes árvores cercada, cingida de um pequeno e claro riacho, que atravessamos com os pés nas pedras e caminhamos, graves, os nossos olhos meneando para aquelas árvores de aspecto majestoso, e com voz suave Jara me falava, mas eu o que ouvia não entendia, enquanto subimos aquela alta pedra pelos galhos, sobre um viso nós subíamos, e de lá, de cima, divisávamos dessas aves o bando numeroso, de verde esmalte - a guerreira me dizia e me indicava, egrégias aves inda me extasia o prazer com que vê-las exultava, relato não me dando fazer plena de todas, a comparsa então se dividindo por outra vereda comigo na trilha, do ar sereno ao ar que treme, vindo me diz, mas na sua língua adversa, que traduzo como: “Aqui chegamos, onde e quando a luz do dia não mais brilha e o espaço menos largo se compreende, mas onde o pungir da dor é mais profundo”.

E aqui quedamos, armando de enorme galho nossas redes, a esperar que da noite as sombras nos cobrissem e o sono, misterioso e leve, nos tomasse.

Mas logo conseguimos ouvir os infernais lamentos da onça negra que rugia como um mar combatido de ventos, de tormenta ou furor nos perseguindo, nunca abatida, que perpetuamente nos seguira em seu embate, recrescida, que à borda daquele abismo precipitava em ais, soluços, rompendo com blasfêmias, ouvindo então de Jara me dizer:  não se atemorize, pois como nós ela também está temendo ao capricho do vento, sem conforto nesta longa série de avanços com seu grasnido assim no gemer seu que não descansa com que o vendaval fustiga denegrida.

E em tumulto as invisíveis aves da noite volteavam ao capricho dos ventos, que as trazia no conforto e não lhes fazia  mais agonia, como nos ares longa série de abutres avançando por trás do tufão de sombras, em vão pelo seu pavor como saídos da tumba de demônios.

E após aquelas aves foi o silêncio feito, que perguntei: “Que aconteceu agora?”

– E Jara respondeu com um suspiro:

“Cruel destino, triste congitar! Procederam do mar do fim do mundo”.

Disse-lhe eu: “Oh Amiga, teus martírios me angustiam”, pois tinha nascido a flor do nosso afeto, como namorados éramos a sós naquele monte, e um ponto só nos deu guarida, pois a boca me beijou estremecida que tombei como corpo morto, mas:

“Espera!” – me disse ela, subia ao alto da colina onde da árvore pode observar uns novos clarões que vislumbrava.


Enquanto que eu da pantera a respiração ouvia por toda parte ao longe e ao lado.


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

TRÊS - A PANTERA

TRÊS - A PANTERA  

ROGEL SAMUEL
E assim Jara me impeliu como se dissesse algo, como se pressentisse não sei o quê, e saímos dali pelo caminho alto e selvagem na noite sem estrelas, no mundo sem nome, sem traço, sem norte, na morte acreditando, que eu sentia, às margens de um igarapé que descia veloz, me dirigindo Jara que me fez parar para então, baixando os olhos, vi uma flecha especada, mas ela, Jara, serena e bela, o gesto me fazia, sem vozes, sem medo, arco em punho:
- Por aqui, por aqui - dizia ela - e quando assim dizia a terra tremeu num solavanco rouco mas tão forte que do medo da terra lacrimosa rompeu um vento e um clarão avermelhado, como se de um som profundo, o gemido das profundezas, tirado por aquele hórrido estampido, estremecendo todas árvores.
Jara continuava calma e, parando, perscrutou por saber por onde se achava a passagem e o caminho que a tudo no lugar sinistro se mostrava atenta.
- Temos de partir, temos de partir, - me disse ela, na sua linguagem selvagem, impulsionando-me com força para aquele vale tenebroso:
- Sim – disse ela, nos afastemos da treva do mundo – ela me disse, enfiando-se por uma subida: “Eu subirei primeiro, tu segundo”.
Tornei-lhe, vendo a sua palidez, pensei:- “Como hei-de ir, se é de espanto dominada, quando a segurança e conforto estou dela esperando”?
- “Vamos, - disse-me ela, sem se deter – essa jornada exige pressa, porque o abismo a estreitar-se já começa -  e escutei, vibrando no ar do espaço inteiro os murmúrios longínquos das bombas que estrugiam, e eu vi que no meio da selvagem terra nós fugíamos de uma grande guerra, sem parar, na selva penetrando e longe ainda divisando o hemisfério das trevas que alumiava, dali distante de onde nos achávamos, mas não tanto que não discerníssemos em parte uma luminosidade brilhando longínqua e o rumor que nos vinha, como que fugíssemos cercados por sombras inimigas e malévolas.


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

DOIS - A PANTERA DE ROGEL SAMUEL



Nesse casebre, à noite, sentimo-nos ameaçados.
Sabemos estar sobre o Eldorado. Pepitas de ouro no leito do lago.
Animais noturnos nos espreitam. O cântico da mãe da lua aterroriza, o urutau canta suas três oitavas horrorosas.
Eu durmo com Jara numa rede alta, encostado no seio do muro do seu silêncio.
As estrelas são vivas. E gritam.
Não há mosquitos, mas um frio vem da alma, vem do calor da noite, dos ventos sinistros dos Andes.

Naquela noite novamente ouvimos a presença noturna da pantera negra, ao redor da casa.
Naquela noite, ouvimos gritos e silvos, gemidos, assobios.
Miracã-uera, o cemitério.
Moramos em cima do cemitério do Eldorado.
Isso nos assusta, nos ilude, no escuro, no miúdo.
Por aqui, a floresta aparece num grande mapa, protegida.
Nenhum civilizado pisou esses solos amaldiçoados, protegidos por demônios encharcados de ouro.
Jara quase não fala, companheira silenciosa.
Não sei de onde ela veio, não sei quem é. E temo que possa matar-me, enquanto durmo.
Mas fazemos o amor selvagem.
Quando ela vê a minha depressão, mergulha no leito do lago e vem com uma pepita de ouro puro que vou acumulando numa mochila já tão pesada.
Depois acende um cachimbo de ipadu, uma espécie de coca, sopra na minha face. E me obriga a mascar algumas folhas amargas, misturadas com cinzas da palmeira motaçu, e um cipó amargo, chamado Tchamaru. Essa mistura me revigora, sinto uma embriaguez deleitosa, súbita euforia, e adormeço em seus braços.
- Ipadu! Ipadu! – diz ela. Ipadu, motaçu, Tchamaru!
E eu me reconheço, e eu me recupero.


Sei que ela pressente o perigo, a guerra. O incompreensível perigo.

sábado, 2 de dezembro de 2017

UM - A PANTERA DE ROGEL SAMUEL



Eu não sei há quanto tempo já que estou aqui. Perdi a consciência da vida e espaço, na letargia de espera, felicidade calma, apática tristeza. Nem sei mesmo onde estou, entre essas imensas árvores, onde os verdes pássaros gritam, os silvestres silvam, estilete no silêncio morno do calor úmido do mormaço da tarde.
Em frente, o lago dourado se abre, largo, sinistro, sem nome. Minha companheira pesca, ela está imóvel, como estátua nua no ar, levantada a lança.
Talvez eu já esteja louco, isolado aqui há muitos anos.
Talvez não.
O mundo desapareceu, mudou-se, fechou-se. O tempo morto, lembranças mortas, espaço morto, verde incompreensível.
Por que de nada me lembro ou de nada me  quero lembrar além da espera da morte, da  guerra final.

Quando o som de arco perfura, sei que ela  não erra. Ela é jovem, bela, ombros largos, pernas longas, barriga torneada.
Está aqui há algum tempo, silenciosa, atenta, misteriosa, meiga. Perigosa. Protetora, amante ou inimiga, não sei. Os velhos permitiram que ela ficasse comigo, não sei por quê. Acho que ela pediu, quando apareceu. Ficou.
Vieram depois guerreiros, dias depois, buscá-la. Ela não foi, gostou de mim, fizemos sexo, selvagem e louco.  
Eles desapareceram. Nem olharam para mim.

Agora Jara é atalaia, está aqui para alertar sobre aproximação do exército inimigo. Será mesmo que virá o exército inimigo? Talvez Jara esteja planejando matar-me. Talvez eu seja o seu inimigo. Mas minha letargia, minha apatia, minha indiferença faz Jara permanecer em paz.