quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

DOIS - A PANTERA DE ROGEL SAMUEL



Nesse casebre, à noite, sentimo-nos ameaçados.
Sabemos estar sobre o Eldorado. Pepitas de ouro no leito do lago.
Animais noturnos nos espreitam. O cântico da mãe da lua aterroriza, o urutau canta suas três oitavas horrorosas.
Eu durmo com Jara numa rede alta, encostado no seio do muro do seu silêncio.
As estrelas são vivas. E gritam.
Não há mosquitos, mas um frio vem da alma, vem do calor da noite, dos ventos sinistros dos Andes.

Naquela noite novamente ouvimos a presença noturna da pantera negra, ao redor da casa.
Naquela noite, ouvimos gritos e silvos, gemidos, assobios.
Miracã-uera, o cemitério.
Moramos em cima do cemitério do Eldorado.
Isso nos assusta, nos ilude, no escuro, no miúdo.
Por aqui, a floresta aparece num grande mapa, protegida.
Nenhum civilizado pisou esses solos amaldiçoados, protegidos por demônios encharcados de ouro.
Jara quase não fala, companheira silenciosa.
Não sei de onde ela veio, não sei quem é. E temo que possa matar-me, enquanto durmo.
Mas fazemos o amor selvagem.
Quando ela vê a minha depressão, mergulha no leito do lago e vem com uma pepita de ouro puro que vou acumulando numa mochila já tão pesada.
Depois acende um cachimbo de ipadu, uma espécie de coca, sopra na minha face. E me obriga a mascar algumas folhas amargas, misturadas com cinzas da palmeira motaçu, e um cipó amargo, chamado Tchamaru. Essa mistura me revigora, sinto uma embriaguez deleitosa, súbita euforia, e adormeço em seus braços.
- Ipadu! Ipadu! – diz ela. Ipadu, motaçu, Tchamaru!
E eu me reconheço, e eu me recupero.


Sei que ela pressente o perigo, a guerra. O incompreensível perigo.

sábado, 2 de dezembro de 2017

UM - A PANTERA DE ROGEL SAMUEL



Eu não sei há quanto tempo já que estou aqui. Perdi a consciência da vida e espaço, na letargia de espera, felicidade calma, apática tristeza. Nem sei mesmo onde estou, entre essas imensas árvores, onde os verdes pássaros gritam, os silvestres silvam, estilete no silêncio morno do calor úmido do mormaço da tarde.
Em frente, o lago dourado se abre, largo, sinistro, sem nome. Minha companheira pesca, ela está imóvel, como estátua nua no ar, levantada a lança.
Talvez eu já esteja louco, isolado aqui há muitos anos.
Talvez não.
O mundo desapareceu, mudou-se, fechou-se. O tempo morto, lembranças mortas, espaço morto, verde incompreensível.
Por que de nada me lembro ou de nada me  quero lembrar além da espera da morte, da  guerra final.

Quando o som de arco perfura, sei que ela  não erra. Ela é jovem, bela, ombros largos, pernas longas, barriga torneada.
Está aqui há algum tempo, silenciosa, atenta, misteriosa, meiga. Perigosa. Protetora, amante ou inimiga, não sei. Os velhos permitiram que ela ficasse comigo, não sei por quê. Acho que ela pediu, quando apareceu. Ficou.
Vieram depois guerreiros, dias depois, buscá-la. Ela não foi, gostou de mim, fizemos sexo, selvagem e louco.  
Eles desapareceram. Nem olharam para mim.

Agora Jara é atalaia, está aqui para alertar sobre aproximação do exército inimigo. Será mesmo que virá o exército inimigo? Talvez Jara esteja planejando matar-me. Talvez eu seja o seu inimigo. Mas minha letargia, minha apatia, minha indiferença faz Jara permanecer em paz.