quarta-feira, 21 de março de 2018

SEGUNDA PARTE: A VIAGEM


TREZE

E partimos para o exterior, saindo do país de ônibus, - eu tinha conseguido passaportes, vistos e um cartão de crédito internacional em nome de Jara, que ninguém conhecia, partimos atravessando a fronteira por terra, viajando para Sydney pela Argentina, num voo transpolar, com conexão na Nova Zelândia. 
Em Sydney hospedamo-nos no Sullivans Hotel, na Oxford Street 21, em Paddington, dentro da vida noturna da cidade, pubs, clubs, a exposição de Sebastião Salgado,   Sydney a capital da fotografia, um erotismo no ar, respiramos jovialidade,  democracia, eu queria morar lá, de vez, com Jara, nada de guerras, crimes, culturas variadas em harmonia, fraternidade universal.
Em Paddington estávamos em paz, ouvimos a Quarta Sinfonia de Brahms naquela monstruosa Opera House, com a Orquestra Sinfônica de Sydney... Mas depois de um mês fomos para Katmandhu, onde permanecemos por um ano.

CATORZE

Daquela varanda via-se a cúpula da Estupa de Bouldha. Em minha frente, o Dr. Shresta descrevia aquela história, falava pausadamente, como quem profere uma conferência num auditório:
- Tudo se resume nisso, disse ele.
E acrescentou:
- O nome da estupa é Jarungkhasor, o que significa: tudo que se lhe pedir será dado.
Jara voltou com a bandeja de chá.
Vestida de tibetana casada, com o avental, parecia mesmo uma tibetana. As pessoas falavam com ela em tibetano na rua, o que ela adorava. Finalmente estava num país onde a aceitavam, a amavam, ainda que não falasse tibetano, nem inglês.
Jara sentou-se e esperou, quieta. Ela sabia esperar, quieta como uma estátua.
- A criadora de porcos já tinha morrido, mas seus dois filhos terminaram a estupa...
E o doutor bebeu um gole de sua chávena de chá, chá com leite, com um pouco de manteiga de iaque, que Jara aprendera a fazer.
- Obrigado, disse ele para Jara, sorrindo, gentilmente.
Ela, desvanecida, retribuiu.
- Mas como tudo começa? – perguntou Jara e eu traduzi.
- Ela era uma deusa, disse o Dr. Shresta, que pelo seu erro de arrancar uma flor foi condenada a nascer aqui, onde se tornou criadora de porcos.
- Um dia, continuou ele, Padmasambhava se dirigiu aos tibetanos nesses termos:
   — Jovens tibetanos, há uma estória que vocês desconhecem, ó jovens tibetanos, que necessitam saber. E é por isso que vocês estão aqui.
      Os tibetanos permaneceram em silêncio, disse o Dr. Shresta.
          — Querem vocês conhecer parte da minha extraordinária estória?
          Os tibetanos pediram que lhes sim.
          E ele assim falou:
          — Isso se passou há muito tempo, no tempo do Buda Mahakashyapa. Minha mãe daquela época se chamava Shamvara, e tinha 4 filhos. Ela construiu a Estupa de Jarungkhasor, no distrito de Maguta, no reino do Nepal.
          Ele puxou sua capa para proteger-se do vento e prosseguiu: “Na vida anterior àquela, minha mãe se chamava Apurna, e residia no Reino dos 33 deuses. Lá, ela tirou uma flor do jardim.
Aquilo era um crime, pois matava a flor, e por isso adquiriu o carma de renascer no reino dos humanos, como uma simples porqueira de nome Shamvara”.
          “Shamvara teve quatro filhos de quatro diferentes homens. Como ficou quase rica com sua criação de porcos, e para o benefício de seus filhos, resolveu construir uma estupa para servir de receptáculo da mente de todos os Budas”.
          “Para isso, Shamvara pediu permissão do rei. E o rei autorizou”.
          “Então ela começou a construir a estupa com ajuda de seus quatro filhos. Mas à medida que a estupa ficava maior e mais bela, os ministros e o povo do Nepal desenvolvia inveja e raiva contra aquela reles porqueira. Eles se consideravam insultados, porque uma simples criadora de porcos, junto de seus quatro imundos filhos ilegítimos, estavam construindo um tão grande e belo monumento”.
          “Movidos pelo ódio, foram ao rei e pediram ao monarca que impedisse aquela construção, que era um insulto para os nobres do lugar”.
          “O rei, porém, respondeu que aquela mulher era pobre, e que através de seu trabalho conseguiu economizar bastante dinheiro para, junto com seus quatro ilegítimos filhos, construir uma estupa, e que ele já tinha autorizado a construção. Portanto a autorização estava valendo, não podia mudar”.
          — Eu, como rei, só falo uma vez, concluiu. Por isso a grande estupa passou a se chamar de “Jarungkhasor”, o que quer dizer uma vez autorizada, nenhum obstáculo deve haver à sua construção.
          “Quando a grande estupa estava prestes a ser concluída, a porqueira previu a sua morte antes do final conclusão.
Ela então reuniu seus quatro filhos e lhes disse:
          — Depois de minha morte, meus filhos, vocês devem concluir a obra, que é a finalidade de minha vida.
          E depois daquelas palavras ela morreu.
          Ouviram-se sinos e os deuses enviaram uma chuva de flores. Diversos arco-íris iluminaram os céus. A natureza homenageava aquela mãe, pela generosidade de ter construído o extraordinário monumento.
A mãe atingiu o estado de Buda.
      Os filhos trabalharam por mais três anos, sete ao todo, e concluíram a obra.
          No fim, o Buda Mahakashyapa, acompanhado por seus filhos bodhissattvas, apareceu sobre o espaço, em cima da estupa.
Também ali estavam todos os Budas e Bodissatvas das dez direções, com numerosos Arahants e os senhores dos três mundos, assim como divindades pacíficas e iradas, todos apareceram na mais auspiciosa presença com grandes sons e flores e nuvens de incenso.
          E a terra tremeu três vezes.
          E uma ilimitada luz da divina sabedoria se difundiu do corpo da assembléia dos Budas ali presentes, eclipsando a luz do sol, e irradiando mesmo de noite por mais cinco dias.
         
O Doutor ajeitou a gola e a garganta, bebeu um gole do chá, sorriu como se se lembrasse de tudo aquilo, e continuou assim:
          — Naquela hora Padmasambhava fez uma promessa, que por causa desse pedido vocês estão aqui.
          Os tibetanos se entreolharam.
Uma águia voejou no espaço, sobre a cabeça da gruta. Um vento novo varreu o vazio entre as grandes montanhas do Nepal.
Padmasambhava prosseguiu:

        — Naquela hora eu fiz o seguinte pedido aos budas e bodissatvas - que, pelo mérito de ter terminado a estupa de minha mãe, que eu pudesse levar o ensinamento para as grandes montanhas geladas do Tibet.

          Todos se calaram. A noite caiu. Um estranho grande vento frio baixou pelo vale, vindo das mais altas montanhas. O pesado silêncio pacificou a todos.
          Assim falou Padmasambhava e os guerreiros tibetanos escutaram em silêncio.



QUINZE



Foi quando chegou o lama tibetano, Korchen Tulku.
-Tashi Delek! – falou.
Sorridente como sempre, sábio, humilde, morava num quarto sórdido sem banheiro, onde cozinhava num fogareiro a querosene. O quarto todo rescendia a querosene e a tinta. Ele era pintor, excelente pintor de thankas detalhadas e minuciosas.
Korchen Tulku era um gênio da pintura de deidades. Depois de estudar, praticar, ele as pintava como as visualizava. No seu quarto havia nas paredes os grandes painéis dos 16 Aharats, em tamanho real. A grande obra estava inconclusa, à espera de um patrocinador.
Korchen Tulku vinha buscar-nos para ir a Parping, montanha próxima, visitar os lugares santos daquela montanha.
Fomos de táxi até certo lugar onde pegamos um ônibus.
Dali só a pé.
No caminho encontramos um tibetano que tinha acabado de descer do Tibet e tentava vender alguns objetos pessoais.
Eu logo me interessei por uma purba, que é uma adaga, um punhal ritual, do rito de Vajrakylaia.
- Quanto custa, eu perguntei.
Ele respondeu em rúpias nepalesas.
Eu não tinha suficientes rúpias comigo, ainda que fosse um preço irrisório.
Não comprei. Saímos, fomos à montanha, passamos o dia todo lá. No fim do dia estávamos de volta no mesmo lugar, para esperarmos o ônibus de Katmandhu.
O tibetano continuava lá. Era um tibetano jovem e sorridente. Fui vê-lo. Lá, ele me deu a purba.
- É um presente para você, disse-me ele.
Eu não podia aceitar.
Peguei a purba e fui até ao lama, onde pedi emprestado as rúpias.
Voltei e paguei aquele homem.
Senti que era meu irmão.


DEZESSEIS



De Katmandhu voei com Jara para Paris. Ficamos no Hotel Fondary, na rua do mesmo nome. Ao lado morava minha amiga Annie, que nos convidou para seu apartamento.
Jara se recusou a entrar no elevador, que era pequeno e ameaçador. Subimos os sete andares de escada, eu e ela.
Annie nos serviu um maravilhoso chá com torradas. Era uma mistura que só ela sabia fazer.
- Quando chegaram? – perguntou Annie.
- Ontem, respondi. Viemos de Katmandhu...
- Ahh – fez Annie – com uma expressão de espanto e admiração.
Ficamos um tempo em sua sala e depois saímos em direção à Torre Eiffel que não estava longe. Jara elegante, no seu casaco tibetano. Atravessamos a praça Duplex, por baixo do metrô e nos metemos numa daquelas ruas. Ao passar pela Avenida Motte Picquet 52 parei para mostrar para Jara a galeria “Paris-Manaus”.
No dia seguinte, tomamos o café no hotel e fomos, eu e ela, conhecer um pouco de Paris.
Almoçamos no “Le Roi du Couscous” e nos mudamos para o Hotel Du Petit Louvre, ali perto, mais conveniente e onde ficamos um mês.
 



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