sexta-feira, 9 de março de 2018

PRIMEIRA PARTE: O LAGO


PRIMEIRA PARTE: O LAGO

1.
Eu não sei há quanto tempo já que estou aqui. Perdi a consciência da vida e espaço, na letargia de espera, felicidade calma, apática tristeza. Nem sei mesmo onde estou, entre essas imensas árvores, onde os verdes pássaros gritam, os silvestres silvam, estilete no silêncio morno do calor úmido do mormaço da tarde.
Em frente, o lago dourado se abre, largo, sinistro, sem nome. Minha companheira pesca, ela está imóvel, como estátua nua no ar, levantada a lança.
Talvez eu já esteja louco, isolado aqui há muitos anos.
Talvez não.
O mundo desapareceu, mudou-se, fechou-se. O tempo morto, lembranças mortas, espaço morto, verde incompreensível.
Por que de nada me lembro ou de nada me  quero lembrar além da espera da morte, da  guerra final.

Quando o som de arco perfura, sei que ela  não erra. Ela é jovem, bela, ombros largos, pernas longas, barriga torneada.
Está aqui há algum tempo, silenciosa, atenta, misteriosa, meiga. Perigosa. Protetora, amante ou inimiga, não sei. Os velhos permitiram que ela ficasse comigo, não sei por quê. Acho que ela pediu, quando apareceu. Ficou.
Vieram depois guerreiros, dias depois, buscá-la. Ela não foi, gostou de mim, fizemos sexo, selvagem e louco.  
Eles desapareceram. Nem olharam para mim.
Agora Jara é atalaia, está aqui para alertar sobre aproximação do exército inimigo. Será mesmo que virá o exército inimigo? Talvez Jara esteja planejando matar-me. Talvez eu seja o seu inimigo. Mas minha letargia, minha apatia, minha indiferença faz Jara permanecer em paz.


DOIS  

Nesse casebre, à noite, sentimo-nos ameaçados.
Sabemos estar sobre o Eldorado. Pepitas de ouro no leito do lago.
Animais noturnos nos espreitam. O cântico da mãe da lua aterroriza, o urutau canta suas três oitavas horrorosas.
Eu durmo com Jara numa rede alta, encostado no seio do muro do seu silêncio.
As estrelas são vivas. E gritam.
Não há mosquitos, mas um frio vem da alma, vem do calor da noite, dos ventos sinistros dos Andes.

Naquela noite novamente ouvimos a presença noturna da pantera negra, ao redor da casa.
Naquela noite, ouvimos gritos e silvos, gemidos, assobios.
Miracã-uera, o cemitério.
Moramos em cima do cemitério do Eldorado.
Isso nos assusta, nos ilude, no escuro, no miúdo.
Por aqui, a floresta aparece num grande mapa, protegida.
Nenhum civilizado pisou esses solos amaldiçoados, protegidos por demônios encharcados de ouro.
Jara quase não fala, companheira silenciosa.
Não sei de onde ela veio, não sei quem é. E temo que possa matar-me, enquanto durmo.
Mas fazemos o amor selvagem.
Quando ela vê a minha depressão, mergulha no leito do lago e vem com uma pepita de ouro puro que vou acumulando numa mochila já tão pesada.
Depois acende um cachimbo de ipadu, uma espécie de coca, sopra na minha face. E me obriga a mascar algumas folhas amargas, misturadas com cinzas da palmeira motaçu, e um cipó amargo, chamado Tchamaru. Essa mistura me revigora, sinto uma embriaguez deleitosa, súbita euforia, e adormeço em seus braços.
- Ipadu! Ipadu! – diz ela. Ipadu, motaçu, Tchamaru!
E eu me reconheço, e eu me recupero.

Sei que ela pressente o perigo, a guerra. O incompreensível perigo.

TRÊS
E assim Jara me impeliu como se dissesse algo, como se pressentisse não sei o quê, e saímos dali pelo caminho alto e selvagem na noite sem estrelas, no mundo sem nome, sem traço, sem norte, na morte acreditando, que eu sentia, às margens de um igarapé que descia veloz, me dirigindo Jara que me fez parar para então, baixando os olhos, vi uma flecha especada, mas ela, Jara, serena e bela, o gesto me fazia, sem vozes, sem medo, arco em punho:
- Por aqui, por aqui - dizia ela - e quando assim dizia a terra tremeu num solavanco rouco mas tão forte que do medo da terra lacrimosa rompeu um vento e um clarão avermelhado, como se de um som profundo, o gemido das profundezas, tirado por aquele hórrido estampido, estremecendo todas árvores.
Jara continuava calma e, parando, perscrutou por saber por onde se achava a passagem e o caminho que a tudo no lugar sinistro se mostrava atenta.
- Temos de partir, temos de partir, - me disse ela, na sua linguagem selvagem, impulsionando-me com força para aquele vale tenebroso:
- Sim – disse ela, nos afastemos da treva do mundo – ela me disse, enfiando-se por uma subida: “Eu subirei primeiro, tu segundo”.
Tornei-lhe, vendo a sua palidez, pensei:- “Como hei-de ir, se é de espanto dominada, quando a segurança e conforto estou dela esperando”?
- “Vamos, - disse-me ela, sem se deter – essa jornada exige pressa, porque o abismo a estreitar-se já começa -  e escutei, vibrando no ar do espaço inteiro os murmúrios longínquos das bombas que estrugiam, e eu vi que no meio da selvagem terra nós fugíamos de uma grande guerra, sem parar, na selva penetrando e longe ainda divisando o hemisfério das trevas que alumiava, dali distante de onde nos achávamos, mas não tanto que não discerníssemos em parte uma luminosidade brilhando longínqua e o rumor que nos vinha, como que fugíssemos cercados por sombras inimigas e malévolas.

QUATRO
Chegamos junto, chegamos a uma íngreme pedra de umas grandes árvores cercada, cingida de um pequeno e claro riacho, que atravessamos com os pés nas pedras e caminhamos, graves, os nossos olhos meneando para aquelas árvores de aspecto majestoso, e com voz suave Jara me falava, mas eu o que ouvia não entendia, enquanto subimos aquela alta pedra pelos galhos, sobre um viso nós subíamos, e de lá, de cima, divisávamos dessas aves o bando numeroso, de verde esmalte - a guerreira me dizia e me indicava, egrégias aves inda me extasia o prazer com que vê-las exultava, relato não me dando fazer plena de todas, a comparsa então se dividindo por outra vereda comigo na trilha, do ar sereno ao ar que treme, vindo me diz, mas na sua língua adversa, que traduzo como: “Aqui chegamos, onde e quando a luz do dia não mais brilha e o espaço menos largo se compreende, mas onde o pungir da dor é mais profundo”.

E aqui quedamos, armando de enorme galho nossas redes, a esperar que da noite as sombras nos cobrissem e o sono, misterioso e leve, nos tomasse.

Mas logo conseguimos ouvir os infernais lamentos da onça negra que rugia como um mar combatido de ventos, de tormenta ou furor nos perseguindo, nunca abatida, que perpetuamente nos seguira em seu embate, recrescida, que à borda daquele abismo precipitava em ais, soluços, rompendo com blasfêmias, ouvindo então de Jara me dizer:  não se atemorize, pois como nós ela também está temendo ao capricho do vento, sem conforto nesta longa série de avanços com seu grasnido assim no gemer seu que não descansa com que o vendaval fustiga denegrida.

E em tumulto as invisíveis aves da noite volteavam ao capricho dos ventos, que as trazia no conforto e não lhes fazia  mais agonia, como nos ares longa série de abutres avançando por trás do tufão de sombras, em vão pelo seu pavor como saídos da tumba de demônios.

E após aquelas aves foi o silêncio feito, que perguntei: “Que aconteceu agora?”

– E Jara respondeu com um suspiro:

“Cruel destino, triste congitar! Procederam do mar do fim do mundo”.

Disse-lhe eu: “Oh Amiga, teus martírios me angustiam”, pois tinha nascido a flor do nosso afeto, como namorados éramos a sós naquele monte, e um ponto só nos deu guarida, pois a boca me beijou estremecida que tombei como corpo morto, mas:

“Espera!” – me disse ela, subia ao alto da colina onde da árvore pode observar uns novos clarões que vislumbrava.


Enquanto que eu da pantera a respiração ouvia por toda parte ao longe e ao lado.

CINCO

“E então” – disse-me ela – “vou em busca de alguma fruta”. Mas da pantera o suspiro rouco ouvindo: “Não” – me diz – “se desvaneça o susto. Ela nada fará contra você, em si mesma consome o seu furor injusto” - mas de repente, com uma onda do mar crescendo e se embatendo, quebrando-se espumante, assim uma turba de aves negras se agiganta, aves em cópia, quase do céu escurecendo parte, nunca vistas antes, fardos de um lado e outro em grita ingente, rolando com suas asas ofegantes, como se de um grande mal fugissem e em volteios não soubessem para que rumo fugir, assim no teto em círculo volteando que iam ao ponto oposto de todo o espaço nos semicírculos: - “Que são?” – a Jara perguntei, “que razão há para aqui estarem?” E ela respondeu: -“Não sei, de algo muito terrível estão fugindo!”.
Até que aquilo passou, anoiteceu e numa lapa fomos dormir.
No dia seguinte me acordou ela dizendo: “Desçamos agora e vamos esquivos que nossa demora aqui é perigosa”. E tiramos dali nossos passos da árvore onde nos abrigamos até uma fonte onde pudemos beber que de uma fenda as águas brotavam como se vinda de alguma torrente interna e a sede saciamos e ao longo do nosso curso prosseguimos por um caminho perigoso nos movendo, até que deparamos uma lagoa junto à encosta do penhasco e um triste ribeiro, que notamos dali seguia para um pântano, onde a tristeza parecia morar, e assim atravessamos e voltamos a descer o que seria uma verde encosta em direção a um lugar mais fresco e longínquo daquela montanha.

SEIS

Acrescentar eu devo que prosseguindo mudos naquela direção o dia inteiro do pico ainda estávamos mesmo assim distantes do anoitecer; e não mais senti a presença negra da pantera nos perseguindo, quando os olhos ao céu dirigindo vimos clarões brilhar como relâmpagos mudos e lumes dois ou três que a terra estremeciam e aí vejo que de Jara os olhos se assustaram, e ligeira logo se fez. E logo nos deparamos com uma pequena planície onde havia montículos de terra que pensei de serem túmulos rasos.
- Mas “não”, disse-me Jara (pois se fossem os animais já teriam descobertos), e encontro sacolas de ouro e mochilas com armas e vestimentas, sapatos e botas e comida envolvidos em plásticos.
Eu me aproprio das utilidades, visto-me de casaco e botas, encho um saco de pequenas pepitas de ouro, armas e um cantil.
Ao que um terrível urro logo ouvimos da pantera que chegava num toque que peguei nas armas ao que Jara me conteve.
- Pare, ela não nos atacará.
E já vestida ela de soldado e armada de faca e de fuzil me parecia protegida.
E depois de revistar outros montículos de terra de umas mochilas nos apropriamos, assim com Jara partimos e eu a segui.
Logo nos primeiros passos sentimos o peso da carga recebida, mas mesmo assim Jara e eu entramos na floresta que rara se fazia, e caminhamos por alguns dias, subindo a encosta da montanha lentamente e passando ao mais alto, mas Jara revelava que aqueles sítios todos antes conhecera.
Do medo a cor que o gesto me alterara ao ver que aparecia, na ponta da planície, marchando célere em nossa direção, aquela pantera.
Mas Jara, como escutando, espreita e me diz:
”Ela quer ela nos atalhar e nos levar nesta direção”.
E Jara aponta aquela direção antiga e diz:
 - “É mister vencer nesta porfia”, - e da pantera a marcha acelerada nos adiantou e de lá saímos, buscando o alto da montanha, onde é raro o aparecer de algo, e um ensejo de nos fazer guiar pelo caminho que entre abismos nos comunica.
Sim, ali, porém, já fui que a inimiga pantera nos constrangia a fazer essa jornada.
Que pensei, e pensando disse para Jara, que agora poderíamos fazer, para das sombras nos tirar dos seus precitos, com as armas de que agora dispúnhamos, poderíamos a fera abater a tiros:
-“Esta é a pior solução” - dizendo ela, voltou-se para mim – e usando uma expressão nova:
- “Esforça-te, querido, eu também sei o caminho que da grande batalha vai nos afastar”.
E acrescentou:
 – “Este paul que a fera cheira é o circundo da guerra e o tormento que de entrar já não podemos sem ira”
Disse, – e não me lembro o que mais disse, o pensamento e o olhar pondo no cimo chamejante que os olhos me prendia, vi que estava atenta, pois de lá longe o aspecto de horripilantes explosões sucessivas que o chão estremecia, que por isso com as unhas a pantera a terra arranhava e com suas patas o o solo rebatia e com tal brado que à guerreira me acerquei de pavor cheio.
Jara volta a face de fúlgida luz o rosto farto, conserva a calma a encarar-me, transformando-se numa sorte de deusa e as mãos juntando às minhas mãos e os olhos no fundo dos meus olhos a amparar-me dessa arte, e logo um tufão distante fremiu impetuoso que de ardores explosivos se cercando, sem pausa fere a terra, que se abria como em leques de sonoridades entre nuvens de pó, alevantando o infinito e após o mundo se cobrindo de um estranho silêncio, mudo e quieto, mundo derradeiro e deserto que vem da insânia rara.


 SETE

À medida que avançávamos então pelo caminho sem nos falar, fomos encontrando sepulcros desiguais e incertos,  restos do exército destruído, esqueletos, cadáveres em tanques de excrementos, mas de modo mais agro o solo coberto de pisadas e de rastros e tampas e terríveis que uns eram túmulos outros eram muros e trincheiras,  o fedor da morte ali restava.
E entra a guerreira por vereda estreita, entre o muro e os martírios, e vai seguindo e eu após ela, pois a seus passos os meus passos se continuam, passando entre as sepulturas descobertas, os corpos estragados, comidos de bichos, os corpos em decomposição, a vida se acabando.
Mas ouço novamente aquele rugir, de súbito saído do horizonte, seguido a um clarão que tanto me horroriza, que à Jara me abracei, apavorado, tremido. E na sombra eu já tinha fitado o vulto da pantera perto de uma tumba aberta. A guerra crua faz na gente o espanto e com ansiosos olhos olhei os lados, a ver se algum guerreiro sobrara ainda vivo para nos alvejar.
Súbito ergueu-se um pássaro em gritaria, quando da pantera se viu ameaçado.
Eu começava a lembrar alguma coisa do que fui, do que fiz, pois não sem motivo estava eu ali, e daquela guerra não estava de juízo certo.
E então, se bem percebo, ao fundo, percebo um precipício e mil jazem por aqui, refleti, e as almas mortas desses ares esvoaçavam, seus corpos desciam o vale horrendo que odientos vapores exalavam.

Foi quando fomos atacados por uma tribo desconhecida, com muitas flechas e gritos lancinantes, que mais tinham o intento de nos afastar que de matar, pois nós não víamos ninguém no dentro da floresta.
Mas eu comecei a disparar os tiros e os gritos silenciaram e as flechas acabaram.




OITO



Passaram-se vários dias sem que a víssemos, a pantera, e por isso julgamos que ela tinha sido morta na batalha, quando então de repente vimos uma lagoa ingente, açoitada dos ventos da montanha, como o que flagela o vento e ao rumo minhas ideias se volveram.
Mas ali buscamos beber.
Jara pode pescar estranhos peixes que comemos. 
“Mas andemos” – disse-me ela, “prossigamos nossa empresa, vem no horizonte a noite ameaçadora, e mais além a rota da passagem se faz escura”.
Apreensivos passamos aquela noite e quando acordamos, no meio da campina, vejo, feroz, um monstro desconhecido, como quem já lá estava à espera e atento à nossa morte, que à vista se fazia pavoroso. Estávamos num caminho quase escondido, na borda de uma ribanceira, de forma que o monstro, que era um búfalo ou algo parecido, nos fechava e ameaçava avançar e então Jara disse: “Rápido demandemos a entrada da passagem” e eu cismava: “estamos agora em ruína”, que do horrendo monstro eu via já a ira invencível. 
“Deves saber que, uma vez descendo ao extremo desse bosque, lá em baixo esta rocha não está como estás vendo”. 
Mas desse vale temi tanto a profundeza, que pensei cairmos no profundo. 

Foi então que vi que minha amiga nos conduzia por uma vereda estreita de pedra de onde víamos o vale e um rio, no fundo, à distância. 
E uma cava divisei por onde passar não podia um animal daquele porte, que arqueava no seu plano inteiro, como quem quisesse que do mal se afastasse. E no espaço em que o penhasco dá passagem veio o monstro descer nos vendo mais acima. O arco e os arremessos preparando estava Jara, quando um brado de longe nos soara, que despertou o monstro para trás. Senti logo que era a pantera vindo, como quem vingara quem fatal lhe fora. 
Aqueles dois monstros logo se encontraram, e a guerra entre eles iam começar, em nome do que os passos meus em tão medonha estrada continuaram. E Jara volveu-se à destra, segurou-me, e disse: “Não olhe para trás, não olhe para trás, vamos descendo para o caminho mais largo, para sairmos daqui o quanto antes”. 
E partimos naquela companhia das ondas de horror que do ar subiam, daquele agudo estridor que vinha ao longe daquelas duas feras em luta de morte que se enfrentavam, e mesmo de longe o sangue me faltava. 

Não estávamos ainda livres disso quando por um bosque penetramos, de vestígios e de traços não marcados, sem frondes verdes mas escuras e cujos galhos nodosos e espinhentos tinham flores e frutos que pareciam venenosos. 

Ainda soavam nas selvas os uivos dos insanos ferozes inimigos que se estavam matando, quando Jara me alertou: “Não encontraremos daqui em diante lugar onde com calma possamos descansar, pois essas matas por aqui são possuídas de estranhas torvações”. 
E asas negras rodopiando nos céus, garras afiadas ameaçando, apareceram e Jara me insta de segui-la, e dali a curta distância nos afasta das aves cujos sons ouvíamos, quando um rio apareceu descendo a montanha, de águas geladas e retombando e caindo pelas encostas. 
Ah, por meus deuses, ah meus deuses, foi quando ouvimos o grito estrídulo da besta, que de longe se aproximava. 
Mas muito tempo caminhamos em silencio para nos afastar do animal sangrento, quando chegamos à beira de um penhasco. 
De uma corda eu me achava então cingido, que a tirasse Jara me dissera, e eu logo a entreguei como ela prescrevera. Então ela à direita se voltando à borda do abismo infando: “Surgirá, em breve, novo perigo, trazido pela besta dos infernos. Precisamos logo sair”. 

E assim começamos a descida, lentos e cautelosos, protegidos pela corda, mas ao longe antevimos a fera de horrenda cauda e bafo imundo. E logo atravessamos para o outro lado: “Convém seja o caminho desviado da senda” disse-me ela. E seguimos pelo lado direito por duas horas de lenta e dolorosa caminhada até bem longe daquele abismo ingente. 



NOVE
  
A glória do sol por fim apareceu. Ainda dormindo estava e eis noto um vulto perto de mim. Era Jara, e assim que a vi se alumiaram meus pensamentos e uma aura de calma que é a maravilha da vida. A força do alto da colina nos impele, disse-me ela. Não nos retenha. Vamos, pois, cingindo o meu braço sem demora. Aqui tornar inútil nos seria, vamos ao sol que surge que é o melhor passo para subir do monte a penedia. E eu ergui-me, então, sem mais demora, e em silêncio, os olhos fitos no semblante de Jara, amparei-me do seu braço. Ela agora mais bela me aparecia. “Comigo vem, disse-me ela”, linda e luminosa, “vamos seguir adiante”. Fugíamos ante a alva na sombra matutina, e já nos ficava aos olhos descobertas as oscilações da estrada. Pela planície andamos que deserta parecia, chegando àquela parte onde o sol não pudera ainda secar o orvalho sobre a relva. Jara brandamente as mãos abriu e o seu movimento noto e compreendo: vimos a passo lento que se aproximava a pantera – Jara me abraçou, dizendo: “Não tema, ela está calma e dócil”.

Resplandecia já o sol no horizonte quando a perdemos. Algumas árvores apareceram na nossa frente, algumas ostentando doce fruto que colhemos. Uma luz pelo espaço vi que deslizava qual voo de ave igual que seja. Olhei de novo contemplando e logo abaixo outro vulto aparecia de igual cor e brilho assinalado. Mas Jara então bradou, como quem já aquelas coisas conhecia: “Curva os joelhos e baixa a cabeça, respeitoso, eis dos deuses os mensageiros! De agora em diante hás de ver outros – uma voz cantando justamente pudemos ouvir e se tornou, como veio, incontinente. 


E ficamos, de repente, atordoados. E avistamos uma montanha luminosa.



DEZ

“Que é aquilo?”, pergunto, mostrando o brilho no alto da montanha. “Não sei“, disse Jara, e me abraçou. 
Mas seguimos aquela estrada sem saber aonde nos levava e enquanto aquela fuga pela planície às sombras nos impelia, à minha amiga fiel mais eu me cingia. Como sem ela pudera prosseguir? Quem para alçar-me esforço me daria?
Assim chegamos àquela pequena, deserta e triste cidade que aparecia. E logo pudemos trocar nossos uniformes de soldado por roupas novas, comprar malas, ir a um hotel onde tomamos banho e, sabendo que havia um aeroporto perto, logo nos dirigimos para lá. 
No pequeno aeroporto pagamos um aeroplano que nos deixou numa cidade maior próxima.
Ali comprei um carro (pois só agora eu vi que Jara trazia duas grandes bolsas cheias de ouro), e de madrugada, como que foragidos escondidos, partimos para o sul.
Viajamos o dia inteiro e à noite nos abrigamos num hotel onde adormeci no colo da minha amiga, que ficou acordada, protegendo-me, arma em punho. 
Quando acordei estava bem melhor e logo sem problemas partimos, descendo aquele desconhecido país em direção Sudeste, dormindo nos hotéis da estrada e foi assim que, depois de vários dias chegamos a uma grande cidade, onde comecei a tratar dos nossos documentos falsos.


ONZE

Ficamos num apartamento de sala e quarto de um membro de nossa organização e, quando os documentos de Jara ficaram prontos, embarcamos para aquela ilha, onde nos hospedamos num chalé. Quando um companheiro apareceu, fomos com ela para a sua casa no meio da floresta. Lá soube de outros companheiros meus que estavam longe, dispersos no mundo. Ou mortos.
Depois, nós nos mudamos para uma cabana isolada, onde moramos por algum tempo. Lá cozinhávamos e caminhávamos ao redor. Dias calmos. De lá podíamos avistar o mar e o horizonte distante.
Depois voltamos para o centro da ilha, onde nos demoramos mais e de lá partimos para uma cidadezinha de barco e numa enseada, onde ficamos morando num barco. Até voltarmos para a cabana.


Na cabana tudo era paz.



DOZE


No Natal descemos até a praia. Mas não paramos muito ali, e fomos para a vila de pescadores, onde nos deixávamos ficar nas dunas, diante do mar, hospedados numa pousada que não tinha boa luz elétrica, e à noite as luzes de vela davam ao ambiente a atmosfera romântica, ao som do mar.
Ouvíamos todas as noites, no bar, a voz daquela cantora de jazz, em fita-cassete. Era uma vila de pescadores, sofisticada e secreta, onde barcos às vezes nos levavam para as ilhas.
Poderíamos morar definitivamente ali, não fosse o meu medo de não chamar atenção sobre nossa presença.
Por isso saímos de lá para o apartamento, pois nosso dinheiro acabava e partimos para uma cidade diferente, nas montanhas, cheia de flores, onde muitas vezes andávamos de madrugada no parque, vendo o luar, sentindo o perfume das árvores no ar.
Na época abria a estação das flores bailarinas, com  vitrilhos brilhos cintilos.
Sob a lua a gente navegava e nas esteiras acesas se abriam leques, madeixas deusas de vespas ledas de seu lácteo almíscar. Aquilo era um palácio e o verão nos seus bronzes sobre as estátuas abertas emitia suspiros giros e engasgos com essas asas de aço sobre fontes, passos da irmandade fecundada com o pulso das estrelas. Da janela víamos a torre da capela, entre as árvores, no sopé da montanha. As magnólias reverdeciam. O resto era a floresta. Que seria aquela casa no meio das árvores da floresta? Uma grande torre de nuvens se erguia no céu, parecendo mais alta do que as mais altas montanhas. Um aeroplano cruza o espaço azul. De lá, quando o céu era limpo e claro, se podiam ver os vales e as montanhas, ao longe.

Foi quando li num jornal a notícia de que a polícia tinha descoberto e prendido um companheiro nosso. E prisão significava sequestro, tortura e morte.
Por isso, voltamos e entrei de madrugada no apartamento, de onde retirei os documentos e foi tudo transferindo para mais dois cofres bancários em nome de Jara.



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