sexta-feira, 21 de julho de 2017

A PANTERA (3)



E assim Jara me impeliu como se quisesse algo, como se pressentisse não sei o que, e saímos dali pelo caminho alto e selvagem, naquela noite sem estrelas, naquele mundo sem nome, sem traço, na morte acreditando, que eu sentia, às margens de um igarapé que descia veloz, dirigindo, quando Jara me fez parar para então, baixando os olhos, fui vendo uma flecha especada, mas ela, serena e bela, um gesto me fazia, sem vozes, sem medo, o arco em punho:
- Por aqui, por aqui, - Jara dizia -, e enquanto assim dizia a terra estremeu num solavanco, que foi tão forte que do medo da terra lacrimosa rompeu um vento e um clarão avermelhado, como se de um som profundo, um gemido das profundezas, tirado por aquele hórrido estampido, estremecendo as árvores.
Mas Jara continuava calma e parando perscrutou por saber por onde se achava a passagem e o caminho e a tudo no lugar sinistro se mostrava atenta.
- Temos de partir, temos de partir, - me disse ela, na sua linguagem selvagem, na força daquele vale tenebroso:
- Sim – disse ela, nos afastemos da treva do mundo – ela me disse e enfiando-se por uma subida: “Eu subirei primeiro, tu segundo”.
Tornei-lhe, vendo a palidez sua pensei:- “Como hei-de ir, se é de espanto dominada, quando a segurança e conforto estou dela esperando”?

- “Vamos, - disse-me ela, sem se deter – essa jornada exige pressa, porque o abismo a estreitar-se já começa -  e escutei, vibrando no ar do espaço inteiro os murmúrios longínquos de bombas que estrugiam, e eu vi que no meio da selvagem terra nós fugíamos de uma guerra, sem parar, na selva penetrando e longe ainda divisando o hemisfério das trevas que alumiava, dali distante de onde nos achávamos, mas não tanto que não discerníssemos em parte uma luminosidade brilhando longínqua e o rumor que nos vinha, como que fugíssemos cercados por sombras inimigas e malévolas.

A PANTERA - ROGEL SAMUEL (reescrito)


1.
Eu não sei há quanto tempo já que estou aqui. Perdi a consciência da vida e espaço, na letargia de espera, felicidade calma, apática tristeza. Nem sei mesmo onde estou, entre essas imensas árvores, onde os verdes pássaros gritam, os silvestres silvam.
Em frente, o lago verde se abre, largo, sinistro, sem nome. Minha companheira pesca, imóvel, como uma estátua nua, lança parada, ar parado, silêncio morno, calor úmido, mormaço da tarde.
Talvez eu já esteja louco, isolado aqui há muitos anos.
Talvez não.
O mundo desapareceu, mudou-se, fechou-se. O tempo morto, lembranças mortas, espaço morto, verde incompreensível.
Por que de nada me lembro? Por que de nada me não quero lembrar? A espera do porvir, a  guerra final.

Nesse momento o som de arco perfura, sei que quando ela atira não erra. 
Jara é jovem. Bela. Ombros largos, pernas longas, barriga torneada, sexo exposto.
Está comigo há tempo. Silenciosa, atenta, misteriosa, meiga. Perigosa. Protetora, amante. Ou inimiga, não sei. Os seus chefes permitiram que ela ficasse aqui comigo, não sei por quê. Acho que ela pediu. Apareceu, ficou. Vieram guerreiros, dias depois, buscá-la. Ela não foi, gostou de mim, fizemos sexo, selvagem, louco.  Eles desapareceram. Não olharam para mim.

Agora Jara é uma sentinela, está aqui para me alertar sobre aproximação do exército inimigo. Será mesmo que virão os inimigos? Talvez Jara esteja planejando matar-me. Talvez eu seja o inimigo. Mas minha letargia não agressiva, minha apatia, minha indiferença fez Jara permanecer em paz. 

A PANTERA - ROGEL SAMUEL (reescrito)



A PANTERA - ROGEL SAMUEL (reescrito)

2.

Não sei há quantos anos moro neste casebre.  Chovia dentro, mas Jara o reforçou. Uma árvore a cobre, com numa rede de ramagem ampla. À noite, entretanto, sinto-me ameaçado. Os animais noturnos nos espiam. O cântico da mãe da lua aterroriza. O urutau canta três oitavas lamentosas. Mas eu consigo dormir, na minha rede bem alta. O silêncio é pesado, amplo, negro, enorme. As estrelas, vivas. Felizmente não há mosquitos nesse rio. Mas um frio intenso vem de dentro do calor da noite. Ventos sinistros do alto dos Andes. O vento vem sobre o leito do rio, sob as estrelas, como uma coisa palpável, branca.

Esta noite experimentamos novamente a sinistra presença noturna daquela pantera negra.  Dormimos como sobre as assombrosas minas do Eldorado. Ouço gritos, gemidos finos, assobios. Miracã-uera cemitério. Sinto que moro em cima de um cemitério. Mas o Eldorado nos assusta, nos ilude, no escuro, no miúdo. Por aqui, a floresta aparece como um grande mapa. Nunca ninguém, nunca nenhum ser humano, nenhum civilizado pisou aqui nesses solos encharcados.
Jara não fala, é uma companhia de nada, silenciosa. Não sei de onde veio, não quem é. Às vezes, temo que ela pode matar-me, enquanto durmo. Às vezes fazemos amor. Ela compreende o meu estado, a minha depressão. Ela então acende uma espécie de cachimbo de ipadu, uma espécie de coca. E sopra na minha face. Me obriga a mascar, pondo na minha boca algumas folhas amargas, misturadas com a cinza de seu cachimbo. São cinzas da palmeira motaçu, acrescidas de um cipó amargo, chamado Tchamaru. Essa mistura me revigora, eu sinto uma embriaguez deleitosa, uma súbita euforia, e às vezes adormeço em seus braços.
- Ipadu! Ipadu! – diz ela. Ipadu, motaçu, Tchamaru!
E eu me reconheço, me recupero.
Mas ela é uma desconhecida. Mas eu a amo. Como aqui não há mais ninguém, nenhuma censura, eu a amo de todos os modos. Ela canta a sua canção selvagem. Canção de guerra, de morte. Ela pressente o perigo. O incompreensível perigo.