sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

A PANTERA DE ROGEL SAMUEL



A PANTERA

ROGEL SAMUEL

1.

Eu não sei há quanto tempo já que estou aqui. Perdi a consciência da minha vida e do espaço, nessa letargia com que espero, de uma felicidade calma, e apática tristeza. Não sei mesmo nem onde estou, no meio dessas imensas árvores, por onde os verdes pássaros passam com seus gritos, e os silvestres silvam fortemente. 
Em minha frente o lago verde se estende, largo e sinistro, sem nome, onde minha companheira pesca, imóvel. 
Ela é uma estátua imóvel. de lança parada, no ar parado, no silêncio morno, no calor úmido, no mormaço da tarde. 
Talvez eu esteja aqui há muitos anos. 

Talvez não. 

O mundo desapareceu, e se mudou, e se fechou. O tempo é morto, as lembranças mortas, o espaço morto, o verde incompreensivel. 
Por que de nada me lembro? - Por que de nada me não quero lembrar? Digo. Ouço a espera do porvir, a espera da guerra final. 

Nesse momento o som de arco perfura a água, eu nem me volto para vê-la, pois sei que quando atira raramente erra.  

Jara é jovem. 
Está comigo desde cedo. Silenciosa, atenta, misteriosa, meiga. Como protetora, amiga, amante. Ou inimiga. Não sei por que os mestres permitiram que ela ficasse aqui. Ela apareceu, e ficou. Vieram alguns guerreiros, dias depois, à sua procura. Jara os mandou retornar, com uma única frase e um gesto. Seus irmãos desapareceram. Não olharam para mim.
Eu vejo Jara como uma sentinela, aqui para alertar sobre aproximação do exército inimigo. Mas por que me aceitaram? Será mesmo que virão os inimigos? Talvez estejam planejando matar-me. Talvez eu seja o inimigo. Mas minha falta de reação agressiva, minha apatia com tudo, minha indiferença fez Jara permanecer em paz. 

E calma. 

A PANTERA (2)
ROGEL SAMUEL

Eu não sei há quantos anos estou nesta casa. Chovia dentro, Jara a reforçou. Uma árvore agora a cobre, como numa rede de ramagem ampla. À noite, entretanto, sentimo-nos ameaçados. Os animais noturnos nos espiam. O cântico da mãe da lua nos aterroriza. É o urutau, que canta três oitavas lamentosas. Mas eu consigo dormir, na minha rede bem alta. O silêncio é amplo negro enorme. As estrelas são vivas. Felizmente não há mosquitos nesse rio. Mas um frio intenso vem dentro do calor da noite. Ventos sinistros vêm do alto dos Andes. O vento vem sobre o leito do rio, sob as estrelas. 
Esta noite, experimentamos novamente a sinistra visita noturna da mesma pantera negra.  Sinto que dormimos sobre assombrosas minas do Eldorado. Ouço gritos noturnos. Miracã-uera,  o cemitério. Sinto que moro em cima de um grande cemitério. Mas o Eldorado nos assusta, no escuro e no miúdo. Por aqui, a floresta é um grande mapa. Nunca ninguém, nenhum ser humano, nenhum civilizado pisou aqui. Jara não fala, é uma companhia de nada, silenciosa. Não sei de onde veio, nem quem é. Às vezes, temo que ela pode matar-me, enquanto durmo. Às vezes fazemos amor. Ela compreende o meu estado, a minha depressão. É quando acende uma espécie de cachimbo de ipadu, uma espécie de coca, e sopra na minha face. Me obriga a mascar, pondo na minha boca algumas folhas amargas, misturadas com a cinza de seu cachimbo. São cinzas da palmeira motaçu, e um cipó amargo, que chama de Tchamaru. Essa mistura me revigora, e eu sinto uma embriaguez deleitosa, e às vezes adormeço em seus braços.
- Ipadu! Ipadu! – diz ela. Ipadu, motaçu, Tchamaru!
E eu me reconheço, me recupero. 
Mas ela é a desconhecida. Como aqui não há ninguém mais, nenhuma censura, aqui eu a amo. E ela canta uma sua canção selvagem. Canção de guerra, de morte. Ela pressente o perigo. O incompreensível perigo.

A PANTERA (3)
ROGEL SAMUEL
Porque Jara me impeliu como queria não sei o que, saímos dali e pelo caminho entramos alto e selvagem, naquele ar sem estrelas, naquele mundo sem nome e sem traço, à morte acreditando que eu colhia de um largo rio à margem dirigindo, Jara me fez parar e então, baixando os olhos fui vendo uma flexa especada, mas dela, serena, o gesto me fazia, sem vozes, sem blasfêmia, arco em punho:
- Por aqui, meu, Jara dizia, e enquanto assim dizia a terra tremeu num solavanco e foi tão forte o movimento que do medo da terra lacrimosa rompeu um vento e um clarão rompeu avermelhado, como de um sono profundo fui tirado por aquele hórrido estampido, estremecendo.
Mas a Jara perscrutou por saber onde se achava e a tudo no lugar sinistro atenta.
- Temos de partir, nos afastar, - me disse ela, na sua linguagem selvagem, da força daquele vale tenebroso:
- Eia! – disse ela, nos afastemos da treva do mundo – ela me disse enfiando-se por uma descida: “Eu descerei primeiro, tu segundo”. Tornei-lhe, a palidez sua notando:
- “Como hei-de ir, se és de espanto dominada, quando segurança e conforto estou de ti esperando”?
- “Vamos, - disse-me ela, sem se deter – essa jornada exige pressa, porque o abismo a estreitar-se já começa -  e escutei, vibrando no ar do espaço inteiro os murmúrios longínquos das bombas que estrugiam, e eu vi que no meio da selvagem terra nós fugíamos da guerra, sem parar, pela selva penetrando e longe ainda divisando, o hemisfério das trevas alumiando, dali distante de onde nos achávamos, mas não tanto que não discerníssemos em parte o clarão brilhante e o rumor que a nós vinha, como que saíssemos de um fúlgido castelo de aspecto majestoso cujos altos muros, cercados por sombras inimigas e malévolas.

A PANTERA 4

ROGEL SAMUEL


Chegamos junto, chegamos a uma íngreme pedra de umas grandes árvores cercada, cingida de um pequeno e claro riacho, que atravessamos com os pés nas pedras e caminhamos, graves, os nossos olhos meneando para aquelas árvores de aspecto majestoso, e com voz suave Jara me falava, mas eu o que ouvia não entendia, enquanto subimos aquela alta pedra pelos galhos, sobre um viso nós subíamos, e de lá, de cima, divisávamos dessas aves o bando numeroso, de verde esmalte - a guerreira me dizia e me indicava, egrégias aves inda me extasia o prazer com que vê-las exultava, relato não me dando fazer plena de todas, a comparsa então se dividindo por outra vereda comigo na trilha, do ar sereno ao ar que treme, vindo me diz, mas na sua língua adversa, que traduzo como: “Aqui chegamos, onde e quando a luz do dia não mais brilha e o espaço menos largo se compreende, mas onde o pungir da dor é mais profundo”. 

E aqui quedamos, armando de enorme galho nossas redes, a esperar que da noite as sombras nos cobrissem e o sono, misterioso e leve, nos tomasse. 

Mas logo conseguimos ouvir os infernais lamentos da onça negra que rugia como um mar combatido de ventos, de tormenta ou furor nos perseguindo, nunca abatida que perpetuamente nos seguira em seu embate, recrescida, que à borda daquele abismo precipitava em ais, soluços, rompendo com blasfêmias, ouvindo então de Jara me dizer:  não se atemorize, pois como nós ela também está temendo ao capricho do vento, sem conforto neste longa série de avanços com seu grasnido assim no gemer seu que não descansa com que o vendaval fustiga denegrida. 

E em tumulto as invisíveis aves da noite volteavam ao capricho dos ventos, que as trazia no conforto e não lhes fazia  mais agonia, como nos ares longa série de abutres avançando por trás do tufão de sombras, em vão pelo seu pavor como saídos da tumba de demônios. 

E após aquelas aves foi o silêncio feito, que perguntei: “Que aconteceu agora?” 

– E Jara respondeu com um suspiro: 

“Cruel destino, triste congitar! Procederam do mar do fim do mundo”. 

Disse-lhe eu: “Oh Amiga, teus martírios me angustiam”, pois tinha nascido a flor do nosso afeto, como namorados éramos a sós naquele monte, e um ponto só nos deu guarida, pois a boca me beijou estremecida que tombei como corpo morto, mas: 

“Espera!” – me disse ela, subia ao alto colina onde da árvore alta pode observar uns novos clarões que vislumbrava. 


Enquanto que eu da pantera a respiração ouvia por toda parte ao longe e ao lado.


A PANTERA 5

ROGEL SAMUEL

“E então” – disse-me ela – “vou em busca de alguma caça”. Mas da pantera o suspiro rouco ouvindo: “Não” – me diz – “se desvaneça o susto. Ela nada fará contra você, em si mesma consome o seu furor injusto” e, com a flecha uma espécie de pássaro abatendo que no alto voava que baqueou por terra a ave abatida, - mas de repente, com uma onda do mar se embatendo, e quebrando-se espumante, assim uma turba de aves negras se albaroa, aves em cópia, quase do céu escurecendo parte, nunca vistas antes, fardos de um lado e outro em grita ingente, rolando com suas asas ofegantes, como de um grande mal temidas e em volteios sem rumo assim no teto em círculo volteando que iam ao ponto oposto de todo o espaço nos semicírculos: - “Que são?” – a Jara perguntei, “que razão há para aqui estarem?” E ela respondeu: -“Não sei, de algo muito terrível estão fugindo!”. 
No dia seguinte me acordou ela e disse: “Desçamos agora e vamos esquivos, nossa demora aqui é perigosa”. E nossos passos da árvore onde nos abrigamos até uma fonte onde bebemos. Ali de uma fenda as águas brotam como se a alguma torrente e a sede saciamos e ao longo do seu curso nós baixamos, por caminho tão diversos nos movendo, até uma lagoa deparamos junto à encosta do triste ribeiro, que notamos dali seguira para um pântano, onde a tristeza morava, e portanto atravessamos e voltamos a subir o que seria uma vende encosta em direção ao vértice de um lugar mais fresco e longínquo da mais alta montanha.

A PANTERA 6.
ROGEL SAMUEL

Acrescentar eu devo que prosseguindo mudos naquela direção o dia inteiro do pico ainda estávamos distante ao anoitecer; e não mais senti a presença negra da pantera nos perseguindo, quando os olhos ao céu dirigindo vemos clarões brilhar como relâmpagos mudos e lumes dois ou três que a terra estremeciam e aí vejo que de Jara os olhos se assustaram, e ligeira logo se fez. E assim deparamos com uma pequena planície onde havia montículos de terra que pensei serem túmulos rasos. Mas “não”, disse-me Jara (pois se fossem os animais já teriam descobertos), e encontro sacolas de dinheiro e mochilas com armas e vestimentas, sapatos e botas e comida tudo envolvido em plásticos. Eu me aproprio das utilidades, visto-me de casaco e botas, encho um saco de maços de dinheiro, armas e um cantil. Ao que um terrível urro nós ouvimos da pantera que chegava que toquei nas armas ao que Jara me conteve, e já ela vestida de soldado e armada de faca e de fuzil me parecia protegida. E depois de revistar todos os montes e de umas mochilas que nos apropriamos, assim Jara partiu e eu a segui somente ao primeiros passos logo sentimos o peso da carga recebida, e sendo assim Jara e eu entramos na floresta que rara se fazia, e caminhamos por alguns dias subindo a encosta da montanha lentamente e passando ao mais alto, mas Jara revelava que aqueles sítios todos antes conhecera.
Do medo a cor que o gesto me alterara ao ver que aparecia, na ponta da planície, marchando célere em nossa direção, aquela pantera mas Jara, como escutando, espreita e me diz: ”quer ela nos atalhar e nos levar nesta direção” que aponta naquela direção antiga e de subida, - “é mister vencer nesta porfia”, - e da pantera a marcha acelerada nos adiantou e de lá saímos, buscando o alto da montanha, que é raro o parecer, e um ensejo de nos fazer guiar pelo caminho que entre abismos nos comunica. Ali, porém, já fui que a inimiga pantera constrangia-nos a fazer essa jornada. Que pensei, e pensando disse para Jara, que agora poderíamos fazer, para das sombras nos tirar dos seus precitos, com as armas de que agora dispúnhamos poderíamos a fera abater a tiros: “Esta é a pior solução” - dizendo ela, voltou-se para mim – e usando uma expressão nova: “esforça-te, querido, eu também sei o caminho que da grande batalha vai nos afastar” – “este paul que a fera cheira é o circundo da guerra e o tormento que de entrar já não podemos sem ira” – e não me lembro o que mais disse o pensamento e o olhar pondo no cimo chamejante que os olhos me prendia, vi que estava atenta, pois de lá longe o aspecto de horripilante explosões sucessivas que o chão estremecia, que com as unhas a pantera a terra arranhava e com suas patas o solo rebatia e com tal brado que à guerreira me acerquei de pavor cheio. Ela volta a face de fúlgida luz o rosto farto conserva a calma a encarar-me, transformando-se numa sorte de deusa e as mãos juntando às minhas mãos e os olhos no fundo dos meus olhos a amparar-me dessa arte, e logo um tufão distante fremiu impetuoso que de ardores explosivos se cercando, sem pausa fere a terra, que se abria como em leques de sonoridades entre nuvens de pó alevantando e após o mundo se cobriu de um estranho silêncio, mudo e quieto, mundo derradeiro e deserto que vem da insânia rara.


A PANTERA 7

ROGEL SAMUEL 

À medida que avançávamos então pelo caminho sem nos falar, formos encontrando sepulcros desiguais e incertos,  restos dos exércitos destruídos, esqueletos podres, cadáveres em tanques de excrementos, mas de modo mais agro o solo todo coberto de pisadas e rastros, e tampas e terríveis que uns eram túmulos outros eram muros e trincheiras, - o forte cheiro da morte inda ali restava. 
E entra a guerreira por vereda estreita, entre o muro e os martírios vai seguindo e eu após ela, pois a seus passos os meus passos se continuam, passando entre as sepulturas descobertas, os corpos estragados, comidos de bichos, os corpos em decomposição, a vida se acabando. 
Mas ouço novamente aquele som, de súbito saído do horizonte, seguido a um clarão que tanto me horroriza, que à Jara me abracei, apavorado, tremido. E na sombra eu tinha já fitado o vulto da pantera perto de uma tumba aberta. A guerra crua faz na gente o espanto e com ansiosos olhos olhei os lados, a ver se algum guerreiro sobrara ainda vivo para nos atacar. Súbito ergueu-se um pássaro em gritaria, quando da pantera se viu ameaçado. 
Eu começava a lembrar alguma coisa do que fui, do que fiz, pois não sem motivo estava eu por ali, pois daquela guerra não estava de juízo certo. 
E então, se bem percebo, ao fundo vejo um precipício. Mil jazem por aqui, pensei, e as almas mortas nesses ares esvoaçam, os corpos desciam o vale horrendo que odientos vapores exalavam. 
Foi quando fomos atacados por uma tribo desconhecida, com muitas flechas e gritos lancinantes, que mais tinham o intento de nos afastar que de matar, pois nós não víamos ninguém no dentro da floresta. 
Mas eu comecei a disparar os tiros e os gritos silenciaram e as flechas acabaram.


A PANTERA 8 (ROGEL SAMUEL)
Passaram-se vários dias sem que encontrássemos a pantera, e por isso julgamos que ela tinha sido morta na batalha, quando vimos uma lagoa ingente, açoitada dos ventos da montanha, como o que flagela o vento e ao rumo minhas ideias se volveram.
Mas ali buscamos beber.
Jara pode pescar estranhos peixes que comemos. “Mas andemos” – disse-me Jara, “prossigamos nossa empresa, vem no horizonte a noite assomando, e mais além a rota da passagem se faz escura”.
Passamos apreensivos aquela noite e quando acordamos, no meio da campina, vejo, feroz, um monstro desconhecido, como quem lá estava à espera e atento à nossa morte, que à vista se fazia pavoroso. Estávamos num caminho quase escondido, na borda de uma ribanceira, de forma que o monstro, que era um búfalo ou um touro, nos fechava e ameaçava avançar e então Jara disse: “Rápido demandemos a entrada da passagem” e eu cismava: “estamos agora em ruína”, que do horrendo monstro eu via a ira já vencida. “Deves saber que, uma vez descendo ao extremo desse bosque, lá em baixo esta rocha não está como estás vendo”. Mas desse vale temi tanto a profundeza, que pensei cairmos no profundo. 
Foi então que vi que minha amiga nos conduzia por uma vereda estreita de pedra de onde víamos o vale e um rio, no fundo da distância. E uma cava divisei por onde passar não podia um animal daquele porte, que arqueava no seu plano inteiro, como quem quisesse que do mal se afastasse. E no espaço em que o penhasco dá passagem veio o monstro descer nos vendo mais acima. O arco e os arremessos preparando estava Jara, quando um brado de longe nos soara, que despertou o monstro para trás, olhando. Senti logo a pantera vindo, como quem vingara quem fatal lhe fora. 
Aqueles dois monstros logo se encontraram, e a guerra entre eles iam começar, em nome do que os passos meus em tão medonha estrada continuaram. E Jara volveu-se à destra, segurou-me, e disse: “Não olhe para trás, vamos descendo para o caminho mais largo, para sairmos daqui o quanto antes”. E partimos naquela companhia das ondas de horror que no ar subiam, daquele agudo estridor que vinha ao longe daquelas duas feras em luta de morte que se enfrentavam, e mesmo de longe o sangue me faltava. 
Não estávamos ainda livres disso quando por um bosque penetramos, de vestígios e de traços não marcados, sem frondes verdes mas escuras e cujos galhos nodosos e espinhentos tinham flores e frutos venenosos. 
Ainda soavam nas selvas os uivos dos insanos ferozes inimigos que se estavam matando, quando Jara me alertou: “Não encontraremos daqui em diante lugar onde com calma possamos descansar, pois essas matas por aqui são possuídas de estranhas torvações”. 
E asas negras rodopiando nos céus, garras afiadas ameaçando, apareceram e Jara me insta de segui-la, e dali a curta distância nos afasta das aves cujos sons ouvíamos, quando um rio aparece descendo a montanha, de águas geladas retombando e caindo pelas encostas. 
Ah, por meus deuses, foi quando ouvimos o grito estrídulo da besta, que de longe se aproximava. 
Mas muito tempo caminhamos em silencio para nos afastar do animal sangrento, quando chegamos à beira de um penhasco. De uma corda eu me achava então cingido, que a tirasse Jara me dissera, e eu logo a entreguei como ela prescrevera. Então ela à direita se voltando à borda do abismo infando: “Surgirá, em breve, novo perigo, trazido pela besta dos infernos. Precisamos logo sair”. E assim começamos a descida, lentos e cautelosos, protegidos pela corda, mas ao longe antevimos a fera de horrenda cauda e bafo imundo. E logo atravessamos para o outro lado: “Convém seja o caminho desviado da senda” disse-me ela. E seguimos pelo lado direito por duas horas de lenta e dolorosa caminhada até bem longe daquele abismo ingente. 



A PANTERA 9 (ROGEL SAMUEL).  
A glória do sol por fim aparece. Ainda dormindo estava e eis noto um vulto perto de mim. Era Jara, e assim que a vi se alumiaram meus pensamentos e uma aura de calma que é maravilha ainda esteja vivo. A força do alto da colina nos impele, disse-me ela. Não nos retenha. Vamos, pois, cingindo o meu braço sem demora. Aqui tornar inútil nos seria, vamos ao sol que surge que é o melhor passo para subir do monte a penedia. E eu ergui-me, então, sem mais demora, e em silêncio, os olhos fitos no semblante de Jara, amparei-me do seu braço. Ela agora mais bela me aparecia. “Comigo vem, disse-me ela”, linda e luminosa, “vamos seguir adiante”. Fugíamos ante a alva a sombra matutina, já nos ficava aos olhos descobertas as oscilações da estrada. Pela planície andamos que deserta parecia, chegando àquela parte onde o sol não pudera ainda secar o orvalho sobre a relva. Jara brandamente as mãos abriu e o seu movimento noto e compreendo: vimos a passo lento que se aproximava a pantera – Jara me abraçou, dizendo: “Não tema, ela está calma e dócil”.
Resplandecia já o sol no horizonte quando a perdemos. Algumas árvores apareceram na nossa frente, algumas ostentando doce fruto que colhemos. Uma luz pelo espaço vi que deslizava qual voo de ave igual que seja. Olhei de novo contemplando e logo abaixo outro vulto aparecia de igual cor e brilho assinalado. Mas Jara então bradou, como quem já aquelas coisas conhecia: “Curva os joelhos e baixa a cabeça, respeitoso, eis dos deuses  mensageiros! De agora em diante hás de ver outros – uma voz cantando justamente pudemos ouvir e se tornou, como veio, incontinente. 
Ficamos, de repente, atordoados. 
E avistamos uma montanha luminosa.

A PANTERA 10 (ROGEL SAMUEL). 

“Que é aquilo?”, pergunto, mostrando o brilho no alto da montanha. “Não sei“, disse Jara, e me abraçou.  
Mas seguimos aquela estrada sem saber aonde nos levara. E enquanto aquela fuga pela planície as sombras nos impelia, à minha amiga fiel mais eu me cingia. Como sem ela pudera prosseguir? Quem para alçar-me esforço me daria? 
Assim chegamos àquela pequena, deserta e triste cidade que aparecia. E logo pudemos trocar nossos uniformes de soldado por roupas novas, comprei malas, fomos a um hotel onde tomamos banho e, sabendo que havia um aeroporto perto, logo nos dirigimos para lá.  
No pequeno aeroporto pagamos um aeroplano que nos deixou numa cidade maior. 
Ali comprei um carro (pois só agora eu vi que Jara trazia duas grandes bolsas cheias de dólares do cemitério do exército), e de madrugada, como que escondidos, partimos para o sul.
Viajamos o dia inteiro e à noite nos abrigamos num hotel onde adormeci no colo da minha amiga, que ficou acordada, protegendo-me.  
Quando acordei estava bem melhor e logo sem problemas partimos, descendo o país em direção Sudeste, dormindo nos hotéis da estrada e foi assim que, depois de vários dias chegamos a uma grande cidade, onde comecei a tratar dos documentos de Jara. 

A PANTERA 11 (ROGEL SAMUEL)
Ficamos no meu apartamento de sala e quarto que um amigo cuidava para mim e, quando os documentos de Jara ficaram prontos, embarcamos para aquela ilha, onde nos hospedamos num chalé. Quando uma amiga apareceu, fomos com ela para a sua casa no meio da floresta. Lá soube de outros parceiros meus que estavam longe, dispersos no mundo ou mortos. 
Depois, Jara e eu nos mudamos para uma cabana isolada, onde moramos por algum tempo. Lá cozinhávamos e caminhávamos ao redor.
Foram dias calmos e felizes.
De lá podíamos avistar o mar e o horizonte distante.
Depois voltamos para o centro da ilha, onde nos demoramos mais. 
 De lá partimos para uma cidadezinha de barco e nos dirigimos para a enseada, onde ficamos morando num barco.
Até voltarmos para a cabana.
Na cabana tudo era paz.



A PANTERA 12

ROGEL SAMUEL

No Natal descemos até a praia. Mas não paramos muito ali, pois fomos para a vila de pescadores, onde nos deixávamos ficar nas dunas, diante do mar. Ficamos hospedados numa pousada que não tinha boa luz elétrica, e à noite as luzes de vela davam ao ambiente uma atmosfera romântica, ao som do mar.
Ouvíamos todas as noites, no bar, a voz daquela cantora de jazz, em fita-cassete. Era uma vila de pescadores, sofisticada e secreta. Havia muitos barcos que às vezes nos levavam para as ilhas. 
Poderíamos morar definitivamente lá, não fosse minha precaução de não chamar atenção sobre nossa presença.
Por isso saímos de lá para o meu apartamento, pois nosso dinheiro acabava (não usávamos cartão de crédito ou cheque, mas dinheiro vivo) e partimos para uma cidade diferente, nas montanhas, cheia de flores, onde muitas vezes andávamos de madrugada no parque, vendo o luar, sentindo o perfume das árvores no ar.
Na época abria a estação das flores bailarinas, com  vitrilhos brilhos cintilos. 
Sob a lua a gente navegava e nas esteiras acesas se abriam leques, madeixas deusas de vespas ledas de seu lácteo almíscar. Aquilo era um palácio e o verão nos seus bronzes sobre as estátuas abertas emitia suspiros giros e engasgos com essas asas de aço sobre fontes, passos da irmandade fecundada com o pulso das estrelas. Da janela víamos a torre da capela, entre as árvores, no sopé da montanha. As magnólias reverdeciam. O resto era a floresta. Que seria aquela casa no meio das árvores da floresta? Uma grande torre de nuvens se erguia no céu, parecendo mais alta do que as mais altas montanhas. Um aeroplano cruza o espaço azul. De lá, quando o céu era limpo e claro, se podiam ver os vales e as montanhas, ao longe.
Foi quando li num jornal a notícia de que a polícia tinha descoberto e prendido um companheiro nosso. E prisão significava sequestro, tortura e morte. 
Voltamos e entrei de madrugada no meu apartamento, de onde retirei todos os documentos e tudo transferindo para mais dois cofres bancários em nome de Jara. 
E partimos para o exterior, saindo do país de ônibus, - eu tinha conseguido passaportes, vistos e um cartão de crédito internacional em nome de Jara, que ninguém conhecia, e partimos sem problemas, atravessando a fronteira por terra e viajando para Sydney pela Argentina, num voo transpolar, com conexão na Nova Zelândia.  
Em Sydney hospedamo-nos no Sullivans, Oxford Street 21, em Paddington. A vida noturna da cidade, pubs, clubs nos distraiu. Visitamos a exposição de Sebastião Salgado ali.  Sydney era a capital da fotografia. Havia um erotismo no ar. Respiramos jovialidade e democracia. Eu queria morar lá, de vez, com Jara. Não havia crimes, nem violência, em Sydney. Culturas variadas em harmonia. Fraternidade universal. Em Paddington estávamos em paz. Ouvimos a Quarta Sinfonia de Brahms naquela monstruosa Opera House, com a Orquestra Sinfônica de Sydney. 
Mas depois de um mês fomos para Katmandhu, onde permanecemos um ano.

A PANTERA 13 (ROGEL SAMUEL)
Daquela varanda via-se a cúpula da Estupa de Bouldha. 
Em minha frente, o Dr. Shresta descrevia aquela história, falava pausadamente, como quem profere uma conferência num auditório:
- Tudo se resume nisso, disse ele.
E acrescentou:
- O nome da estupa é Jarungkhasor, o que significa: tudo que se lhe pedir será concedido.
Jara voltou com a bandeja de chá. 
Vestida de tibetana casada, com o avental, parecia mesmo uma tibetana. As pessoas falavam com ela em tibetano na rua, o que ela adorava. Finalmente estava num país onde a aceitavam, amavam, ainda que não falasse tibetano, nem inglês. 
Jara sentou-se e esperou. 
- A criadora de porcos já tinha morrido, mas os dois filhos terminaram a estupa.
E o doutor bebeu um gole de sua chávena de chá, chá com leite, com um pouco de manteiga de iaque, que Jara aprendera a fazer. 
- Obrigado, disse ele para Jara, sorrindo, gentilmente.
Ela, desvanecida.
- Mas como tudo começa? – perguntou Jara e eu traduzi.
- Ela era uma deusa, disse o Dr. Shresta, mas pelo seu erro de arrancar uma flor foi condenada a nascer aqui, onde se tornou criadora de porcos. 
- Um dia, continuou ele, Padmasambhava se dirigiu aos tibetanos nesses termos:
   — Jovens tibetanos, há uma estória que vocês desconhecem, ó jovens tibetanos, que necessitam saber. E é por isso que vocês estão aqui.
      Os tibetanos permaneceram em silêncio, disse o Dr. Shresta.
          — Querem vocês conhecer parte da minha extraordinária estória?
          Os tibetanos pediram que lhes contasse.
          E ele assim falou:

          — Isso se passou há muito tempo, no tempo do Buda Mahakashyapa. Minha mãe daquela época se chamava Shamvara, e tinha 4 filhos. Ela construiu a Estupa de Jarungkhasor, no distrito de Maguta, no reino do Nepal.
          Ele puxou sua capa para proteger-se do vento e prosseguiu: “Na vida anterior àquela, minha mãe se chamava Apurna, e residia no Reino dos 33 deuses. Lá, ela tirou uma flor do jardim. Aquilo que era um crime, pois matava a flor, e por isso adquiriu o carma de nascer no reino dos humanos, como uma simples porqueira de nome Shamvara”.
          “Shamvara teve quatro filhos de quatro diferentes homens. Como ficou quase rica com sua criação de porcos, e para o benefício de seus filhos, resolveu construir uma estupa para servir de receptáculo da mente de todos os Budas”.
          “Para isso, Shamvara pediu permissão do rei. E o rei autorizou”.
          “Então ela começou a construir a estupa com ajuda de seus quatro filhos. Mas à medida que a estupa ficava maior e mais bela, os ministros e o povo do Nepal desenvolvia inveja e raiva contra aquela reles porqueira. Eles se consideravam insultados, pois uma simples criadora de porcos, junto de seus quatro filhos ilegítimos, estavam construindo um tão grande e belo monumento”.
          “Movidos pelo ódio, foram ao rei e pediram ao monarca que obstruísse aquela construção, já que aquilo constituía uma humilhação para os nobres”.
          “O rei, porém, respondeu que aquela mulher era pobre, e que através de seu trabalho conseguiu economizar bastante dinheiro para, junto com seus quatro ilegítimos filhos, construir uma estupa, e que ele já tinha autorizado a construção. Portanto a autorização estava valendo, não podia mudar”.
          — Eu, como rei, só falo uma vez, concluiu. Por isso a grande estupa passou a se chamar de Jarungkhasor, o que quer dizer uma vez autorizada, nenhum obstáculo deve haver à sua construção.
          “Quando a grande estupa estava prestes a ser concluída, a porqueira previu sua morte antes da conclusão. Ela então reuniu seus quatro filhos e lhes disse:
          — Depois de minha morte, ó filhos, vocês devem concluir a obra, que é a finalidade de minha vida.
          E depois daquelas palavras ela morreu.
          Ouviram-se sinos e os deuses enviaram uma chuva de flores. Diversos arco-íris iluminaram os céus. A natureza homenageava minha mãe, pela generosidade de ter construído a extraordinária estupa.
Minha mãe atingiu o estado de Buda.
       Nós trabalhamos mais três anos, sete ao todo, e concluímos a obra.
          No fim, o Buda Mahakashyapa, acompanhado por seus filhos bodhissattvas, apareceu sobre o espaço, em cima da estupa. Também ali estavam todos os Budas e Bodissatvas das dez direções, com numerosos Arahants e os senhores dos três mundos, assim como divindades pacíficas e iradas, todos apareceram na mais auspiciosa presença com grandes sons e flores e nuvens de incenso.
          E a terra tremeu três vezes.
          E uma ilimitada luz da divina sabedoria se difundiu do corpo da assembléia dos Budas ali presente, eclipsando a luz do sol, e irradiando mesmo de noite por mais cinco dias.
          O Doutor ajeitou a capa, bebeu um gole de chá, sorriu como se lembrasse de tudo aquilo, e continuou:
          — Naquela hora eu fiz um pedido. Por causa desse pedido vocês estão aqui.
          Os tibetanos se entreolharam. Uma águia voejou no espaço, sobre a cabeça da gruta. Um vento novo varreu o vazio entre as grandes montanhas do Nepal.
Padmasambhava prosseguiu:

        — Naquela hora eu fiz o seguinte pedido aos budas e bodissatvas - que, pelo mérito de ter terminado a estupa de minha mãe, que eu pudesse levar o ensinamento para as grandes montanhas geladas do Tibet.

          Todos se calaram. A noite caiu. Um grande vento frio baixou pelo vale, vindo das mais altas montanhas. O pesado silêncio pacificou a todos.
          Assim falou Padmasambhava e os guerreiros tibetanos escutaram em silêncio.




14. A PANTERA (Rogel Samuel)
Foi quando chegou o lama tibetano, Korchen Tulku.
-Tashi Delek! – falou.
Sorridente como sempre, sábio, humilde, morava num quarto sórdido sem banheiro, onde cozinhava num fogareiro a querosene. O quarto todo rescendia a querosene e a tinta. Ele era pintor, excelente pintor de thankas detalhadas e minuciosas. 
Korchen Tulku era um gênio da pintura de deidades. Depois de estudar, praticar, ele as pintava como as visualizava. No seu quarto havia nas paredes os grandes painéis dos 16 Aharats, em tamanho real. A grande obra estava inconclusa, à espera de um patrocinador. 
Korchen Tulku vinha buscar-nos para ir a Parping, montanha próxima, visitar os lugares santos daquela montanha.
Fomos de táxi até certo lugar onde pegamos um ônibus.
Dali só a pé.
No caminho encontramos um tibetano que tinha acabado de descer do Tibet e tentava vender alguns objetos pessoais.
Eu logo me interessei por uma purba, que é uma adaga, um punhal ritual, do rito de Vajrakylaia.
- Quanto custa, eu perguntei.
Ele respondeu em rúpias nepalesas. 
Eu não tinha suficientes rúpias comigo, ainda que fosse um preço irrisório.
Não comprei. Saímos, fomos à montanha, passamos o dia todo lá. No fim do dia estávamos de volta no mesmo lugar, para esperarmos o ônibus de Katmandhu.
O tibetano continuava lá. Era um tibetano jovem e sorridente. Fui vê-lo. Lá, ele me deu a purba.
- É um presente para você, disse-me ele.
Eu não podia aceitar. 
Peguei a purba e fui até ao lama, onde pedi emprestado as rúpias.
Voltei e paguei aquele homem.
Senti que era meu irmão.




15. A PANTERA (Rogel Samuel)



De Katmandhu voei com Jara para Paris. Ficamos no Hotel Fondary, na rua do mesmo nome. Ao lado morava minha amiga Annie, que nos convidou para seu apartamento.
Jara se recusou a entrar no elevador, que era pequeno e ameaçador. Subimos os sete andares de escada, eu e ela.
Annie nos serviu um maravilhoso chá com torradas. Era uma mistura que só ela sabia fazer. 
- Quando chegaram? – perguntou Annie.
- Ontem, respondi. Viemos de Katmandhu...
- Ahh – fez Annie – com uma expressão de espanto e admiração.
Ficamos um tempo em sua sala e depois saímos em direção à Torre Eiffel que não estava longe. Jara elegante, no seu casaco tibetano. Atravessamos a praça Duplex, por baixo do metrô e nos metemos numa daquelas ruas. Ao passar pela Avenida Motte Picquet 52 parei para mostrar para Jara a galeria “Paris-Manaus”. 
No dia seguinte, tomamos o café no hotel e fomos, eu e ela, conhecer um pouco de Paris.
Almoçamos no “Le Roi du Couscous” e nos mudamos para o Hotel Du Petit Louvre, ali perto, mais conveniente e onde ficamos um mês.
  

16. A PANTERA (Rogel Samuel)

Mas logo voltamos para o Rio, peguei dinheiro, e de lá para Manaus, onde comprei uma pequena lancha e partimos para o alto Rio Negro até aquele lago onde morei e onde conheci Jara.
A pantera estava esperando, na margem. 
Ao ver-nos, pulou do seu ganho e desapareceu na floresta.  
A casa em ruínas.
 Por isso, resolvemos morar na lancha que, apesar de apertada, nos oferecia melhor proteção.
Ali havia duas camas, pequena cozinha, um banheiro, janelas teladas.
À noite se ouviam estranhos ruídos, cânticos da floresta, a Mãe da Lua, ou urutau, canto sinistro como a morte; o uivo do rasga-mortalha, ou suinara.
Um dia, em pleno dia, ouvimos um longínquo berro, que Jara disse: - É matintaperera...
Mesmo não acreditando no monstro peludo de um olho só, aquilo me deu um arrepio e eu logo me armei com uma espingarda. 
Jara riu e disse:
- Não se preocupe, está passando pelo outro lado do rio...
Eu não gostei. 
Fiquei apreensivo. 
Agora, aquela mata agora me parecia estranha, inóspita. Vieram alguns guerreiros, dias depois, a procura de Jara, que tratou com eles não sei o quê e depois os mandou retornar. Não me olharam.
Os animais noturnos nos ameaçam. Eu não consiguia dormir. Jara não falava, companhia silenciosa. 
Assim voltamos para o Rio de Janeiro, juntos...



17. A PANTERA (Rogel Samuel)


O mundo estava mudado quando chegamos ao Rio. Mesmo assim, tomei todos os cuidados para não chamar muita atenção sobre nós, e acabamos saindo novamente do país.
Fomos para Frankfurt.
Ao chegarmos, recebidos no Aeroporto por um amigo que trabalhava há muitos anos naquele país e morava na pequena cidade de Walldorf.
Depois de alguns dias em Walldorf passamos para Frankfurt, na Mendelson Strass, no apartamento de outro amigo. 
Depois visitamos a estátua Germânia. 
Meus amigos gostaram de Jara, e ela se deu bem com eles. Chegou a sorrir, coisa muito rara nela. 
Um dia, fomos a Strasburg com Jara e eles no carro. 
Havia uma chuva fina que molhava o chão das ruas e punha as folhas das árvores pensativas. 
Meu avô, que era alsaciano, transbordou sua mulher e filho para um navio inglês que passava. O menino ficou em Strasburgo. 
Ele cresceu perto da Catedral.  Acordava ao som de seus sinos. A catedral, maior do que a  própria cidade.  
Lá esperei as 18 horas dentro da Catedral.  
A primeira coisa que aconteceu foi abrir-se uma portinhola e dali sair  um boneco mecânico, um esqueleto vestido de Morte, que martelou um sininho. 
Aquilo ecoou por toda a nave. 
Era o início da festa.
O grande sino da Igreja respondeu, solene, grave.  
Às 18 horas o relógio funcionou. Os sinos badalaram, foi uma consagração.
Dias depois visitamos um castelo onde foi filmado “O nome da rosa”, que é uma vinícola.
Mas foi quando recebi um recado vindo do Brasil de meu tio Carlos.

A PANTERA 18.
ROGEL SAMUEL

A carta de meu tio Carlos demorou quase um mês para chegar. 
Meu tio dizia que precisava urgentemente falar comigo, pois estava sozinho no sítio.
Tio Carlos vivia há muitos anos no meio do mato nos arredores do Rio recluso como um eremita, acompanhado por uma governanta e um piano.
Solteiro, retirou-se e eu não o via há muito tempo.
Na carta ele me mandava o número do seu telefone (antes não tinha) e dizia que a governanta Antonia tinha falecido e que ele estava só, necessitando de minha orientação como único parente vivo de que ele se lembrava.
Tio Carlos tinha sido um advogado comunista ligado às causas sociais, era muito culto, falava vários idiomas, tinha uma biblioteca preciosa, e principalmente tocava piano. 
O piano era o objetivo de sua vida, e ele estudava diariamente as 32 sonatas de Beethoven como se fosse um profissional. 
Para ele, o maior intérprete de Beethoven tinha sido Backhaus (“apesar de nazista”, dizia ele).
Tio Carlos mantinha  na parede uma enorme fotografia de Wilhelm Backhaus jovem, ainda muito bonito. A foto estava autografada pelo próprio pianista, que tio Carlos conheceu em concerto. Era a foto clássica de Backhaus, sentado de lado numa cadeira, braços cruzados, o cabelão cortado à esquerda e puxado para a direita, olhando para a câmera fixamente. Devia ter uns 20 anos naquela foto. Tio Carlos tinha a coleção completa das Sonatas de Beethoven por Backhaus em disco. 
Backhaus, dizia um crítico, está para os outros pianistas com o monte Everest sobre as outras montanhas. «Majestade e sutileza, técnica sobre-humana, presença e graça». Tocou por cerca de 70 anos, e foi um dos primeiros a gravar um disco. Dizem que ele teve duas fases, antes e depois da Segunda Guerra Mundial. 
Antes demonstrava vitalidade, emoção. Depois, entristeceu.  
Escreveu Backhaus, «quanto mais simples, mais belo». Ele não era chegado às aparições espetaculares. Era modesto, ainda que idolatrado, reconhecido, famoso. Suas interpretações equilibradas, a delícia de seus ouvintes, não era para a demonstração de sua virtuosidade pianística. 
Depois se soube que ele não só tinha sido nazista como era mesmo amigo do próprio Hitler.
Mas meu tio Carlos o adorava. 
Ele tinha importado livros em vários idiomas sobre a técnica pianística de Backhaus. 
Meu tio repetia sempre que Wilhelm Backhaus era o único pianista que soube tocar a Hammerklavier Sonata.
Backhaus tocou até o fim de seus dias, aos 85 anos de idade.
Enfim eu consegui falar com meu tio pelo telefone.
Prometi voltar. 



A PANTERA 19.
ROGEL SAMUEL

Meu tio ainda estava morando sozinho no sítio. Nas paredes havia antigos desenhos meus, alguns trabalhos de adolescente, quando eu desenhava vestidos daquelas mulheres da alta costura das revistas europeias de minha mãe, que era costureira, o Burda e outras de que não me lembro. Eu acabei, por imposição de minha mãe desenhando centenas de vestidos. Minha mãe que assim fazia para manter-me quieto ao seu lado, me especializou em alta costura sem querer ou saber, pois eu desenhava as roupas que minha mãe fazia para as freguesas. As freguesas adoravam e minha mãe, orgulhosa, me exibia como um gênio. E eu me sentia recompensado.
O sítio ocupava o morro e o vale, longe passava a estrada, que ia para o vilarejo.
Meu tio descia até a estrada, pegava um ônibus que passava de hora em hora para fazer as compras. Às vezes ia à cidade receber sua aposentadoria. Tudo antes feito pela governanta, que morreu.
Quando eu cheguei ali com Jara, ele não estava. Entramos na casa, completamente aberta. Fomos nus tomar um banho de igarapé ali atrás da casa, banho refrescante e divertido. O pequeno córrego vinha da mata e abria um pequeno tanque, frio, tranquilo. Meu tio se banhava ali, havia sabonete e toalha. 
Andamos no pomar e na horta maltratada.  A casa deteriorada, sua limpeza não se fazia há tempo. Depois do banho, começamos a limpar a cozinha e a fazer a comida. 
Meu tio apareceu, cansado.
Foi uma festa.
Ele fez questão de abrir uma garrafa de champanhe francesa que tinha na adega do porão. Adorava a França.
A reunião me fez bem, reunião familiar que eu não experimentava há anos.
Meu tio Carlos, irmão de minha mãe, me conhecia desde criança, aos 80 anos ainda era um homem forte, graças à vida simples e ao trabalho no campo.
Ele já tinha preparado nosso quarto, com as portas do armário abertas.
Desse modo, depois do almoço nos recolhemos e dormimos. 
Só à noite tivemos ânimo para mais conversar. Eu contei um pouco da minha vida, mas ele estava interessado era em Jara. Acho que apaixonado por ela.
Jara e ele se deram muito bem. Conversaram a noite toda.
No fim que ela “cantasse” uma canção indígena.
Ela acabou cedendo e aí aconteceu o inesperado. Ela cantou e bateu o chocalho de meu tio por alguns minutos. E dançou. Eu nunca a tinha visto fazer aquilo. Ela se transfigurou.
Depois meu tio foi ao piano, a meu pedido. Tocou uma sonata de Beethoven, mas já não era nem a sombra do que tinha sido e o piano estava péssimo.
- O Ricardo morreu, disse-me ele. Não conheço ninguém para tratar do piano. 
Eu disse que ia procurar outro.

A PANTERA 20.
ROGEL SAMUEL

Nossa vida com o tio Carlos foi divertida. 
Contratei operários para pintar a casa, fizemos uma reforma rápida e finalmente consegui que viesse do Rio um afinador de piano.
Tínhamos empregados temporários que cuidavam da horta, dos jardins e da cozinha.
Um dia ele me disse, sentado na cadeira de embalo da varanda.
- Eu gostaria de rever Paris...
E depois de um tempo:
- Antes de morrer...
Eu já esperava que ele dissesse isso. Sabia o que ele queria dizer e que tinha umas economias, mas eu não queria acompanhá-lo, devido à minha situação política.
Mas prometi apoiá-lo.
Passei aqueles tempos ouvindo os discos de meu tio, principalmente A Paixão segundo Mateus de Bach, que meu tio tinha, em Long Play. Eu ouvia aquilo diariamente, como um ritual, e o velho aparelho de som com suas grandes caixas de som serviam para abrir nos espaços aquela música sublime. 
Com o piano recuperado, limpo e afinado, pedi a meu tio que tocasse algo de Bach.
E assim vivíamos nós, de pura música.


A PANTERA 21 (ROGEL SAMUEL)

Meu tio foi a Paris. Levei-o ao Aeroporto. Auxiliei com dólares e contatos.
A sua ausência criou um vazio muito grande no sítio. O piano, silenciado, me chamava a seu encontro. Todos os dias eu sentava no banco do piano e tentava tocar qualquer coisa com meus rudimentares conhecimentos. Meu pai era bom pianista e me deu aula até quando eu tinha sete anos. Ele era um bom professor, eu era um péssimo aluno de piano. O de que eu gostava era de costurar e bordar, como minha mãe. Meu pai se irritava com isso. “Seja homem”, gritava. 
No sítio, passei a desenhar e costurar para Jara. Fiz várias roupas para ela. Eu desenhava e costurava muito bem desde menino. Imitava Balenciaga, cujos desenhos conheci através das revistas de minha mãe. Jara ficou muito feliz e bela com seus novos vestidos.
As paredes de meu tio estavam cheias de desenhos meus, que ele emoldurou. Eu gostava de criar roupas luxuosas, capas, chapéus, joias. Quando eu era menino, minha mãe punha-me a desenhar a seus pés, para que eu ficasse quieto. Depois, quando adolescente, ensinou-me a costurar, para ajudá-la nas diversas encomendas que recebia. Acabei aprendendo e me desenvolvendo na costura. Eu era rápido e tinha estilo. Desenhava as roupas antes de as fazer. E dizia que aquela seria a minha profissão. Fazia de tudo. Moldava, cortava, cosia a máquina e a mão. Costurei também roupas masculinas, camisas, ternos e  jaquetas. Tudo impecável. Diziam que eu era melhor do que minha mãe. Jara ficou espantada com a minha habilidade de costureiro.    

Comprei uma moto, para a fuga rápida. Tracei a rota de fuga pela floresta, no caso de invasão. Fugiríamos de motocicleta, saindo rapidamente pelo outro lado de morro. 
Eu nunca estava tranquilo. Se fosse preso, seria torturado e morto. Nós tínhamos chamado atenção no vilarejo próximo com minhas compras. As pessoas especulavam.
Depois de um tempo, advertido por companheiros da nossa organização, as Panteras Vermelhas, coloquei um caseiro no sítio e desapareci com Jara.
Fugimos, saindo do país pelas rotas clandestinas que eu sempre usava. 
Eu não podia ter um endereço fixo, não podia ter uma vida normal, nem uma família.




A PANTERA 22 (ROGEL SAMUEL)

Em Paris, encontrei meu tio no “Bistro Duplex”, que fica em baixo do “Hotel du Petit Louvre”. Estava com um café na mesa. Parecia um parisiense.
Sua alegria foi grande.
Sentamo-nos com ele e ouvimos suas novidades ainda ali com as malas no chão. Meu tio já tinha comprado um lote de livros e de Cds.
- Não existe mais a Paris do meu tempo, disse ele, triste. 
- Acabou com a guerra, respondi. E perguntei:
- Quanto tempo mais quer ficar aqui?
- Uns seis anos! 
E caímos na gargalhada. 
Sim, estávamos felizes.
- Ótimo, respondi. Posso arranjar isso.
E dias depois aluguei um apartamento ali perto, na rue Violet, onde nos alojamos. Era um sala e quarto, mas tinha um bom hall de entrada. A sala era dividida por um biombo desbotado. Eu e Jara ficamos no quarto, meu tio na sala, um jogo de sofás, perto da cozinha e do banheiro. Comprei uma máquina de costura usada. Depois desses ajustes, tudo ficou ótimo e passei a desenhar, cortar e costurar um vestido para Jara e fiz um magnífico sobretudo para meu tio. Ele adorou e disse-me que eu era o gênio da moda.
E realmente vinha-me, cada vez mais, um desejo antigo, infantil de costurar. Meu tio queria que eu me tornasse estilista de moda. 
- Estamos em Paris, disse ele. A capital da moda. É isso que você faz muito bem.

Assim, incentivado por ele, matriculei-me na “Ecole de la Chambre Syndicale de la Couture Parisienne”. 
Ali estudei estilo, desenho de figurino, silhueta, movimento, posições do corpo, criação de uma coleção pessoal, montagem, acabamento e modelismo. O curso, mantido em colaboração com agentes do mundo profissional, habilitava os alunos a aprofundar seus conhecimentos de técnicas de design de vestuário, tradicionais e contemporâneas, com abordagem criativa para modelar e desenvolver suas habilidades estilísticas através de registros de uma coleção pessoal e para complementar oferecia o conhecimento do ambiente dos negócios econômicos do setor da moda. Na realidade, preparavam-nos para ser um empresário da moda. 
Era tudo o que eu queria.
Logo vi que tinha muito a aperfeiçoar, mas eu era muito bom naquilo que aprendi ainda menino. E me interessava e ia desenvolvendo.
Um dia um professor, vendo-me trabalhar na gola de um casaco, me perguntou:
- Com quem você aprendeu a fazer isso?
- Com minha mãe, respondi.
- Quem era ela? Coco Chanel?
E rimos.
De certo modo era verdade. Minha mãe era discípula de Chanel à distância.


A PANTERA 23.
ROGEL SAMUEL

Decidi morar em Paris até o fim dos meus dias. Não podia sentir medo diariamente, vendo meus inimigos em toda parte. Com meu tio e Jara, ganhava a família que não tive.
Para fixar-me em Paris, dei entrada no pedido de cidadania francesa. Meu pai era francês.
O tio disse que gostaria de rever Biarritz, onde estivera antes. Passamos alguns dias no Hotel Marbella. Meu tio se lembrava de cada esquina daquela cidade. Dias felizes. Demos um mergulho no mar de águas geladas. Entramos em lojas, galerias, jardins. 
Eu disse para ele que não mais regressaria ao Brasil, e pedi que ficasse conosco. 
Não respondeu. Presumo que ele não entendia de onde eu tirava dinheiro, nem lhe contei. Naquele tempo já tinha conta em banco europeu. Não era muito dinheiro, dava para manter-nos por algum tempo. Eu esperava trabalhar depois de meu curso de moda. 
Eu queria tê-lo a meu lado, figura paterna, que já estava muito velho para morar sozinho no sítio. A vida cultural de Paris o atraía, museus, concertos, livrarias, conferências, bibliotecas. Ele passava a viver novamente, fazia novas amizades. Cozinhávamos em casa para economizar, e o simples fato de andar por aquelas ruas já era um grande programa. 
Eu aprendia rápido no meu curso na “Ecole”. Não era um iniciante.

Mas o tio voltou para o sítio e nós continuamos em Paris, no apartamento da rue Violet. Por telefone, mantínhamos contato. Tomado por Paris, começou a dizer que voltaria, que ia arrendar o sítio, mas nada fazia. 
Eu e Jara éramos felizes e eu estava cada vez mais animado com o curso, pois logo virei professor de modelos especiais (senhoras baixas, gordas e idosas). Nisso eu era bom.

Mas tudo mudou. Jara começou a dizer que queria voltar para a tribo. A princípio, não levei a sério,  mas ela repetia, e eu comecei a suspeitar que estivesse louca. 
Por fim, tomou decisão de voltar sozinha e disse que ninguém poderia impedi-la.
Assim eu a mandei sozinha para Manaus, onde meus companheiros a esperavam e a levaram para a mata onde ela simplesmente desapareceu. 










A PANTERA 24.
ROGEL SAMUEL

Não mais vi Jara. Gastei muito pagando dinheiro em expedições no Amazonas em busca da desaparecida. Aquilo começava a chamar atenção da mídia e era falado em Manaus. 
Sem Jara, fiquei em Paris no fundo da mais sombria noite de grande depressão.  
Continuei meu curso de costura na “Ecole” e já fazia pequenos trabalhos em diversos ateliers  além de dar aula na própria escola. Era fácil desenhar e costurar roupas para aquelas modelos altas e magras. Difícil era fazer o que eu fazia, trabalhar com senhoras de meia idade, ou mesmo idosas, algumas gordas e barrigudas como as freguesas de minha mãe. Mas eu conseguia que elas se sentissem elegantes. Sabia realizar aquele milagre. Era o que eu ensinava na escola, uns truques, com poucos alunos. Mas aquelas senhoras milionárias podiam pagar o trabalho de um estilista de alta costura.
A minha especialidade foi logo reconhecida. 
Eu não era um novato, vinha de longe, e a escola reconhecia logo quem sabia fazer o difícil, os melhores em cada especialidade. E nisso era eu um consumado mestre.

Então compreendi havia algo em Jara que sempre dizia - sou livre, sou um animal selvagem, um caçador solitário da floresta. 
Sim, Jara era livre, uma solitária pantera. 
Mas eu quase morto, no fundo de mim algo morrera para sempre. O meu âmago chorava diariamente.
Mas resolvi esquecê-la, apesar de procurá-la pelo telefone. Depois, nem isso. A pantera é um animal solitário. Ninguém alcança no fundo da noite. Eu sabia disso. 
Toquei minha vida. Sempre fui um sobrevivente, um guerrilheiro. 
Não mais vivia às custas do dinheiro dela, que tinha acabado. Comecei a ganhar alguma coisa  como professor, estilista, costureiro. 
Passava a gozar meus instantes. Vivia modestamente. Tomava o café de manhã em casa, ia para as aulas na Escola. Voltava para casa. Dava aulas noturnas. Lia até bem tarde. Era o meu cotidiano. 
Apesar do trabalho, vi que meu dinheiro era pouco. Paris é uma cidade cara. Comecei a pensar em morar num quarto no subúrbio.


A PANTERA 25.
ROGEL SAMUEL

Meu tio faleceu pouco depois. Foi outra imensa, grande perda. Ele me fez herdar o sítio, cujo valor não era grande coisa. Não fui ao seu sepultamente. Ele foi achado morto dias depois. 

Coloquei um caseiro no sítio. Não consegui vender meu apartamento de Copacabana. 
E aprendi a ser pantera, um caçador solitário, um sobrevivente. 

Um dia, uma senhora, diretora da Maison Rivière, me procurou perguntando se eu poderia atender uma freguesa sua. Fui apresentado como estilista a uma senhora baixa, mal-humorada, gorda, barriguda e poderosa que tinha rejeitado todos os modelos apresentados anteriormente. 
Era a Madame Adele.

Ela era a viúva de um magnata oriental, uma espécie de príncipe, que necessitava de uma roupa para um evento, o que eu desenhei na hora, e ela gostou, porque era algo que ela podia vestir com conforto e beleza, com uma capa de seda e lã em dois planos, sem nenhum enfeite, mas deslumbrante. Na realidade desenhei dois vestidos, um mais claro, outro mais escuro, e eram simplesmente notáveis (eu mesmo reconheço) e possibilitavam que ela usasse suas joias, o que certamente ela deveria de ter.
O detalhe grandioso estava na gola, uma espécie de cocar indígena franzido na própria fazenda que a “levantavam”, que a fazia maior, mais alta, além do cabelo e do salto.
Ela gostou, comprou na hora por uma fortuna, não discutiu preço, e se foi. E a equipe de costureiras num alvoroço começou a preparar as fazendas, a cortar, comigo a supervisar os detalhes. 
O milagre da obra eram aquelas costureiras e bordadeiras.
Quando ela veio vestir a roupa me disse que  estava soberbo.

Foi assim que eu me tornei estilista principalmente daquela senhora, que me pagava regiamente, viúva de um dos homens mais ricos do mundo, segundo a revista Forbes. Tinha até um Banco.

Comecei na ganhar pequenas fortunas dela e de outras freguesas que ela indicava. 

Asim voltei a morar na rue de Fondary, num apartamento de boa localização.

E me ocupava a minha profissão, o que me ajudava a esquecer Jara. Eu dormia e sonhava com diversas roupas, luxuosas, vestidos daquelas mulheres que me apareciam como a Rainha Vitória, a mais indígena das rainhas.

E pouco depois eu passei a desenhar também joias que deveriam ser usadas com meus vestidos, cocares de ouro e diamantes, penduricalhos espetaculares, chocalhos reluzentes. 

Um dia recebi um convite para visitar um príncipe árabe. Ele queria que eu vestisse sua mulher.

- Eu lhe disse que ia pensar... - ele dobrou o preço.

- Mas o senhor vai permitir que eu a veja e toque na sua esposa?

- Com a minha presença...

E acrescentou:

- Você não vai vê-la por muito tempo, e eu quero um vestido excepcional para ela.

Depois descobri que ele era filho de Madame Adele. 

Assim fiz o meu trabalho e ele me pagou regiamente. Ao chegar em Paris e atender Madame Adele que não parava de me encomendar novas roupas e de me recomendar a suas amigas soube que gostaram.

- Meu filho adorou seu trabalho, me disse ela em segredo, sussurrando no meu ouvido. E me deu um Cartier de presente.

E eu me ri, pensando no que representava. 
Aquela profissão estava tomando um rumo que eu não nunca tinha pensado. Mas aumentava minha conta bancária e me permitia viver quase luxuosamente.

Depois disso, outros árabes me encomendaram roupas para esposas e concubinas. Principalmente concubinas. 
Em todas eu acoplava um véu ou uma capa que podia ser usados para cobrir o rosto.
E descobri uma coisa – quanto mais luxuosos e caros os vestidos, mais eles gostavam.
Então eu ia criando roupas dignas de rainhas bordadas a ouro sobre sedas raras, com pássaros e flores exóticos e até um largo bracelete de ametistas e brilhantes que ficou famoso pela beleza e... pelo preço. 
A criança costureira que fui aos pés de minha mãe agora amadurecia.


A PANTERA 26.
ROGEL SAMUEL

Nas “férias” parti para Katmandhu – porque férias eram meses de verão em que não recebíamos nenhum pedido novo. 
Parti para Katmandhu, para Pullahari, onde
pretendia fazer um retiro.

O Khenpo meu amigo que me atendeu, que eu já conhecia, me recomendou um retiro de silencio de 21 dias. Mas só consegui fazer 4. A minha agitação e loucura interna aflorou e aumentou nos primeiros dias e meus fantasmas e demônios secretos e recônditos apareceram, me confrontaram e dominaram.

Em sonhos eu me via na selva, em plena guerra da guerrilha que passei, ouvindo disparos de todos os lados, tentando escapar do cerco das tropas inimigas, me arrastando pela terra úmida, pulando sobre a correnteza de um córrego na escuridão da noite para escapar.
Era a cena real que vivi e que me perseguia a vida toda porque fui o único sobrevivente da batalha daquela noite. 
Tínhamos caído numa emboscada levados por um falso guia para a morte. 
Foi terrível. 
Todos morreram. 
Eu escapei porque me perdi e me atrasei no caminho. 
Sim, cheguei atrasado para a morte. 

Pullahari era um mosteiro quase inacessível na montanha aonde tínhamos de subir a pé. 
Já na subida encontrei o primeiro obstáculo, externo, uma manada de búfalos me atacou e eu tive de me refugiar numa árvore onde fui cercado pelos animais que não sei por que me olhavam com ódio e urravam...   
Fiquei ali até que apareceu um garotinho muito pequenino que devia de ter uns dozes anos e era o pastor da manada... e com um pedacinho insignificante de vara os conduziu ladeira abaixo.

Eu já tinha estado em Pullahari anteriormente. 
Da primeira vez os monges, sabendo que eu vinha do  Amazonas, me deram um saquinho com cinzas dos restos mortais de Jamgon Kongtrul Rinpochê para jogar no grande Rio. 
Foi o que fiz, mais tarde,

No meu retiro, na solidão, e no silêncio daquela cela, eu me lembrei daquelas cinzas e de seu significado e no fato de eu ter conhecido a minha amiga Jara no rio Amazonas.

De fato eu fui para aquele lugar da floresta para não ser achado, para não ser preso, preso e torturado pelas forças policiais.

Eu já conhecia aquele lugar na floresta porque ali havia uma cabana que desapareceu, pois era de barro coberta de paxiúba. Ali não havia mosquitos, e ninguém que passasse no rio poderia me ver naquele labirinto selvagem.

Eu não devia de ter ido a Pullahari. 
Aquele mosteiro acendeu em mim a angústia de ter perdido a única mulher que amei, e que me amou, e do alto daquela montanha aos pés dos Himalaias eu decidi voltar para o lugar no Rio Negro onde a tinha perdido, onde Jara tinha desaparecido para procurá-la.

No dia da partida, contei ao Khenpo a minha decisão e ele me recomendou a antes procurar o Lama Tenpa em Boudanath que poderia me orientar no que fazer, antes de voltar ao Brasil.
Foi o que fiz.


A PANTERA 27.
ROGEL SAMUEL

O Lama Tenpa era Khampa, nasceu no Kham,  Tibet, família de fazendeiros. Seu pai tinha iaques, cavalos e cabras.
Com a ocupação chinesa, seus pais foram  presos, depois mortos, acusados de latifundiários e, portanto, “inimigos do povo”. Sobraram ele, adolescente, a avó e uma irmã pequenina. Os três não conseguiam cuidar da fazenda, plantar, colher, alimentar os animais restantes. Os chineses confiscaram grande parte do que tiveram e do colhiam. Tempos depois morreu a avó e a irmã. Os chineses ocuparam o que sobrara. 

Ele andou até Lhasa, onde passou a participar de protestos contra a invasão chinesa. 

Numa delas foi preso.

Preso, mas nunca foi a julgamento. 

Durante a prisão apanhou muito, ficou com uma grande cicatriz na perna por causa de uma bordoada. 

Nesses anos ele recebia uma xícara de chá aguado e um momo (sem nada dentro, umas bolotas feitas de farinha e água e cozidas). Era a alimentação dos tibetanos nos presídios chineses.

Ficou preso anos. Mas um dia foi libertado sem saber por quê. Se ficasse no Tibet, iria acabar matando chineses. Seria um assassino. Resolveu tornar-se um monge. 

Como mendigo, andou, durante seis meses até Katmandhu, comendo o que lhe davam. 

Quando chegou foi ao monastério de Dazang Rinpoche, que era Khampa, e ali tomou votos.

No terceiro retiro de 3 anos, este em Pullahari,  teve um problema na coluna. Ele já andava com muita dificuldade, por causa dos longos períodos sentado. Tinha que operar. No Nepal  não faziam a cirurgia na época. Foi colocado em avião para a Índia, onde foi submetido à cirurgia e ficou tetraplégico. 

Mas aos poucos, com acupuntura, muito remédio tibetano e uma nova cirurgia na Índia, ele recuperou os movimentos da mão esquerda, depois o braço esquerdo. O lado direito permanecia paralisado, assim como as pernas.

O Lama Tenpa – muito sorridente, irradiando felicidade - me recebeu na cama, e eu lhe disse - por um intérprete - o que queria saber.

- Talvez você nunca mais a veja, respondeu ele, depois de fazer a previsão, jogando o Mô.

Voltou a jogar o Mô e disse:

- Não volte lá. Ali sua vida corre perigo. Seus inimigos o esperam, armados. Sua esposa está bem, junto com os seus.

(O Mô é uma adivinhação tibetana feita com um dado.) 

Fiquei agradecido, fiz um oferecimento, que ele respondeu com uma pequena reza.

Saí dali menos confuso. Tentei relaxar. Telefonei para Paris, assisti a um grande Puja no mosteiro Dharlam, e voltei para a França, onde me aguardavam encomendas de Madame Adele, para quem fiz um luxuoso vestido de rainha das Amazonas...

Devolvi o apartamento. Voltei a viver em hotéis variados, como forma de me esconder.  











A PANTERA 28.
ROGEL SAMUEL
Fiquei em Paris morando novamente no Hotel Petit Louvre, para diminuir a solidão, a lembrança, a depressão. 
Perto havia loja de comunistas soviéticos, onde comprava vodka e tinha um jovem amigo soviético. Quase ao lado, um restaurante libanês, muito bom; na entrada vinha uma grande salada verde. Ao lado, uma loja de queijos, grande variedade.

Aquele Hotel era a minha casa. 
Aos domingos, uma feira debaixo do Duplex, onde se comprava de tudo, até discos usados. Eu tinha tudo ali. Poderia ser feliz, sozinho. Eu mesmo lavava minha roupa na automática, enquanto lia um livro, calça jeans, camisetas.

Um dia, fui à Catedral de Chartres. Passei o dia lá. O frio intenso, casaco pesado. Houve um desfile, era o “dia do amistício”. Velhos soldados desfilaram em cadeira de rodas, heróis da Segunda Guerra. Visitei os túneis da Catedral. Mistérios. Mortes. Num fundo poço escuro jogavam as pessoas ainda vivas. Senti-me mal.

Em Paris, conheci Bahati, jovem negra nigeriana, magra, perfeita, olhos negros, voz cristal. Era um grande mistério, e me atraiu de imediato. Eu nada sabia de sua vida, nem onde morava. Dormíamos juntos e de manhã ela saía e voltava à noite. Disse-me que era modelo. Eu não acreditei. Nossa relação era sexual. Eu lhe dava regularmente dinheiro. Às vezes tomávamos o desejum juntos, outras vezes me deixava na cama, ainda dormindo, e se despedia com um beijo. Um dia Bahati se foi, em viagem, desapareceu por um tempo. 

Nessa época conheci Nicole, moça do subúrbio de Paris. Tinha um noivo. Ia casar-se.

Foi quando apareceu Asami.














A PANTERA 29.
ROGEL SAMUEL

Asami era javanesa, modelo de moda, exótica, andrógina, alta, misteriosa. Amante de um banqueiro, que lhe dera um apartamento de presente. Asami um luxo, deusa oriental. 
Asami tinha brilho, carisma, porte. Não fosse o amante, faria carreira de sucesso. O amante a prendia. Mesmo assim já tinha estado na capa de duas revistas de moda, sua foto podia ser vista nas óticas do mundo inteiro, mesmo no Brasil, de óculos escuros, vestida de homem, olhando para baixo. 

Eu a conheci na Maison Riviere, onde eu trabalhava. Nossos olhares se encontraram. Foi imediato. Sem dizer palavra, saímos dali para o hotel, onde nos amamos com som e fúria, e depois ela se foi, voltou para a casa do amante, era escrava dele, de seu poder, de seu dinheiro, da sua força.

Seu amante era um idoso muito rico, e Asami o amava. Ele era casado, tinha filhos e netos. Algumas horas ficava com ela, mas sempre voltava para a casa da família. Ele viajava frequentemente, Asami ficava só, quando trabalhava, posando, desfilando, vivendo a sua vida de modelo. Josef não a impedia totalmente, e a impôs numa agência de publicidade. 

Asami foi minha amada impossível. Josef, o amante, a perseguia para saber aonde ela ia, com quem saía. 

Até que desistimos, principalmente porque a negra Bahati voltou. Voltou e se foi.

Mas conheci Narayani, uma indiana. Ela era muito magra e nosso relacionamento foi muito bom.  E rápido.

Eu continuava a estudar na “Ecole”.
“Existem faculdades de modas – diz um antigo estilista - universidade de moda, mas com absoluta certeza os grandes profissionais saem de casas de tecidos, onde o contato constante com a matéria prima é primordial, e em geral, aprendemos a modelar, fazer moulage, conhecer textura de tecidos, costurar, fazer flores, bordar, trabalhar com acabamentos e o principal desenhar, ilustrar, criar por anos a fio. Isso devemos as melhores e algumas extintas casa de tecidos, somos uma turma enorme de estilistas invisíveis, mas queridos por mulheres de opinião, de extremo bom gosto, confiantes em nós... Alguns alçaram voos e estão fazendo a sua arte com muita maestria... Essa é minha homenagem a todos os estilistas de lojas comerciais, e aos patrões que apostaram em suas qualidades profissionais”.




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ROGEL SAMUEL

Mas eu conheci Maya, bailarina russa. E a conheci no teatro, após o espetáculo. E quando nos encontramos passamos três dias juntos. Nossa ligação era mal vista por sua companhia. O Diretor me disse grosseiramente: 

- Largue a Maya, seu... (e disse um palavrão em russo).

Na realidade ele esperava que Maya encontrasse um milionário (e ela merecia), e não a mim, refugiado sulamericano sem dinheiro.

Maya tinha corpo de garça, de graciosa leveza, fascinante, leve.

Um dia, lembro-me bem, saímos os três, 
Maya, o Diretor (não me lembro o nome) e eu. 

Jantamos e depois fomos para o meu hotel.  

O Diretor descobriu um disco na estante, o
Segundo Concerto para Piano, de
Beethoven, tocado por Cor de Groot, com a
Orquestra Sinfônica de Viena, regida por 
Willem van Otterloo.

Maya passou a “dançar” o concerto, improvisando. O Diretor numa interpretação facial, gestual, sentado na sua cadeira: e foi um belo espetáculo teatral.

Os dois inventaram na minha frente um Balé-Beethoven.

Eu amei Maya até o trágico dia de sua despedida: O Diretor apareceu no meu hotel com fúria (era um homem enorme e forte), e nos separou à força (estávamos nus, na cama), e a levou com brutalidade, com autoridade brutal, e nunca mais a vi.



Depois de alguns meses conheci Helene Reval.
Recomendado por uma amiga, eu tinha alugado um apartamento numa casinha em Marlenheim, na place du Maréchal Leclerc, onde planejava ficar recolhido. 
Fiquei muito tempo ali.
Minha rotina era de manhã saía para beber um café com croissant, um pedaço de camembert, na pequena padaria quase em frente, na mesma praça. Depois saía para uma caminhada pelos arredores, pois a senhora estava arrumando a casa. Ia quase sempre até um pequeno mercado, onde me abastecia e comprava meu almoço já pronto. Voltava quase na hora do almoço, lia um pouco depois, dormia e ouvia música. À noite saía até um bar rua Gal. De Gaule, onde bebia uma taça de vinho e olhava os carros que passavam. Às vezes voltava tarde, e ia dormir ao som daquele silêncio.
Raramente fui a Strasbourg, de ônibus, que já me parecia uma cidade grande demais. Às vezes ia a Kuttolsheim, onde conhecia pessoas e frequentava um centro budismo. 
Mas desenhava e pintava umas aquarelas.
Um dia, no ônibus que me trazia de Strasbourg, sentei-me ao lado de Helene Reval. Foi amor imediato. Quase sem nos falar já estávamos abraçados. Saímos dali para um hotel onde pernoitamos. 
No dia seguinte Helene foi para meu apartamento. E lá ficou. 
Foi uma revolução em minha vida. Ela estava de férias, em casa de uma tia, e nos unimos na minha casa. 
Quando suas férias acabaram, voltei com ela para Paris e retomei meus trabalhos na Maison Riviere. 
Helene era tudo para mim. Com ela, a vida ganhava sentido. Como sua família vivia no subúrbio, resolvemos morar num Hotel, o de sempre, du Petit Louvre.


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Mas, do mesmo modo súbito que Helene tinha surgido na minha vida, assim ela se foi...
Um dia, me chega a notícia de que Jara tinha sido vista em Manaus...
Fiquei muito tempo assim... Alguém dizia que era ela, outro dizia que não. Havia várias notícias vagas.
Mas se ela quisesse saber de mim, ela saberia a quem se dirigir. 
Não. Eu não queria mais vê-la. Estava curado dela.
Continuei tocando a minha vida e meu curso na Escola. Eu tinha inaugurado a moda indígena. Fazia agora uma série de enfeites indígenas, colares para senhoras. Eram projetos de joias. Inaugurei, na Europa, a moda indígena.
E não entrei em desespero por notícias de Jara. Estava cansado daquilo.  
Mandei recado para os amigos:
- Se Jara estiver aí e quiser falar comigo, me avisem.
E era só. 
Eu tinha de tocar a minha vida solitária. Do ponto de vista profissional, tudo ia bem. Tinha permissão do governo francês para trabalhar, e pagava os impostos. O mundo seguia o seu rumo... Por que tinha de ficar desesperado? 
Comecei a procurar companhia, amizades, apoio. Passei a frequentar lugares onde as pessoas iam encontrar e fazer novas relações. Mas não queria mais ninguém. 
O efeito imediato das notícias de que Jara tinha sido vista em Manaus foi que passei a sonhar com ela.
Não eram sonhos claros, inteligíveis, mas pedaços de sonhos desconexos, mas eram bons, que me davam felicidade.
Jara aparecia como uma jovem que me ajudava, e principalmente em uma espécie de viagem.
Primeiramente, ela surgia em relação a uma certa viagem de trem que eu tentava fazer. Depois, veio junto a um sonho em que eu preparava duas malas para viajar, e já estava atrasado, e podia perder o vôo...
Jara nos meus sonhos era um vulto difuso, indefinido, mas eu sentia que era ela.
Que viagem seria aquela? Que partida? 
Talvez fosse a morte, talvez prenunciasse a minha morte... 
Mas Jara, nos sonhos, era a protetora.
E eu tentava não pensar nela, tentava esquecê-la.
Enquanto isso, não sentia solidão. Nem tristeza.

Entretanto, vieram notícias de que Jara agora estava casada com outro homem, o dono de um barco, e que vivia com ele a bordo. 
Aquilo a princípio me afetou. Senti ciúme. Como ela podia ter-se unido a outro? Depois me enchi de apreensões. Como ela podia expor-se assim, depois de ter vivido comigo tantos anos? 
Eu comecei a teme por sua vida, pois ela podia ser presa e, uma vez presa, torturada até à morte para “delatar” os outros membros de nossa organização. 
Ela nada sabia, eu nada lhe tinha dito. A única coisa que ela sabia era onde estava o cemitério do exército inimigo no meio da floresta.
Eu tinha de fazer alguma coisa para protegê-la. Afinal eu era responsável por tudo,  por colocar sua vida em risco. 
Assim, mandei mensagens para membros de nossa organização, e pedi para tirá-la daquela situação.
À princípio meus companheiros responderam com o indicativo de raptá-la à bordo.
Eu disse para não fazer aquilo. Jara era experta e podia defender-se. Ela era rápida e perigosa, sabia contra-atacar de modo fulminante. 
Temi por sua vida novamente.
Meus companheiros tinham de preveni-la, apenas.
Então, encarregaram a nossa companheira Geralda de entrar em contato com ela.
Geralda viajou no barco onde Jara morava com seu novo namorado e no meio da viagem aproximou-se dela em segredo e alertou-a do perigo.
Jara respondeu que precisava falar comigo.
De fato, no meio da noite desapareceu. 
Procuram-na muito. Disseram que ela tinha caído na água.
Mas eu sabia que ela tinha pulado para fora do barco, tinha sumido no meio da floresta.




A PANTERA 32
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 Um mês depois recebi a mensagem de que Jara estava escondida em Manaus e que tinha algo para mim. Mas eu não podia atendê-la, não podia expor-me. Nem tinha sua habilidade de ficar invisível entre as gentes.
Jara me fez saber que resgatou dinheiro do que estava escondido no centro da floresta. Fiz chegar a ela a notícia de que eu não podia ir, e que ela tinha de desaparecer de Manaus.
Ela disse que sim, e membros de nossa organização conseguiram enviar-me dólares, numa operação complicada através do banco de Madame Adele. 
Eu continuava como aluno a dar aula na Escola. Era fácil desenhar para modelo magra e esguia, difícil era o que eu fazia para matronas, senhoras de meia idade ou mesmo idosas, gordas e baixas.  Nisso eu era o mestre. 
Jara compreendeu o risco que corria. 
- Se te pegam vão torturar-te até a morte para saber onde os outros estão, disse-lhe eu.
Ela entendeu.
Ela desapareceu sem deixar rastro.  Não se despediu, nem revelou seu paradeiro.

Meses depois, passei minhas férias na Austrália, para onde fui a fim de receber um ensinamento de meu Guru. Fiquei ali quase dois meses.
Quando voltei – movido por um desejo louco de superar-me, e para ver até onde ia a capacidade de Madame Adele de gastar – quando voltei fiz o trabalho mais luxuoso até então. 
Era um belo vestido negro com bordados discretos de fios de ouro em forma de secretos pavões. Havia centenas de pequenas pedras preciosas espalhadas, esmeraldas, rubis e diamantes. A fazenda exclusiva para a roupa, e escolhida por mim, era negra cor de petróleo. Tinha vários tons de negro. Simples, mas perfeito. Sua beleza residia na simplicidade, mas era uma joia.
Havia numa capa estilizada que cobria o rosto e o corpo, com pequenos pavões bordados um a um. Cristais, esmeraldas e diamantes. 
Aquilo custou uma fortuna. Projetei sapatos muito leves e confortáveis feitos pelo melhor sapateiro de Paris, com a mesma fazenda.  
 Tudo deslumbrante, que alcançou grande sucesso na foto publicada em uma revista de moda sem o meu nome (“O costureiro não foi revelado”, dizia). Madame Adele saía de seu Rolls-Royce na foto.
Era algo milionário, caríssimo, eu me excedi.
No fim, esperava que ela me despedisse quando lhe apresentei a conta, mas em vez disso ela me chamou e me pediu exclusividade com uma proposta milionária de  pagar-me mensalmente através de seu próprio banco.
Aceitei e fiz a exigência de ter a nacionalidade do seu país.
Ela aceitou.
Eu lhe disse:
- Primeiro tenho que falar com o pessoal da Maison.
- Não, senhor, disse-me ela. Isso faço eu. 
Acrescentei:
- Nada posso fazer sem aquelas costureiras, bordadeiras etc. Elas são as minhas mãos preciosas.




A PANTERA 33.
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Um dia M. Adele me perguntou se eu queria minha própria casa de moda. Eu ia dizer que não, mas hesitei. Lembrei-me de que ela era minha cliente única. 
Assim aceitei.
Financiado por ela, abri uma pequena loja num prédio de dois andares. O prédio pertencia ao seu banco. Em cima fiz um pequeno apartamento para onde me mudei e um espaço para um atelier. 
Abrimos a loja na época do Natal. O prédio pertencia ao banco, que nada me cobrava. Negócio de mãe para filho. 
Chamava-se Casa Amazonas.
Comecei a vender joias trazidas de Katmandhu  e contratei duas funcionárias, uma costureira e uma bordadeira.
Eu tinha tudo de que precisava e comecei a fazer para clientes eventuais vestidos que eram acabados na Maison Riviere. Vendendo bem, graças a M. Adele, muito bem relacionada com a alta sociedade europeia e que me recomendava.
Assim vivia. 
Para ocupar-me nos dias em que não aparecia ninguém, voltei a fazer fotografia.
Comecei a fotografar Paris, os mendigos, manequins, coloquei umas bonecas velhas, fotografei o atelier espelhado no olho de vidro de uma boneca. 
Um dia a negra Bahati apareceu. Passei a fazer fotografia com ela nua.
Fotografei corpos nus masculinos e femininos em copos de vinho espelhando bonecas velhas, olhos de vidro espelhando vultos esfumaçados, um mundo de coisas espelhadas que se abriu.  
Um dia, me pediram um vestido de noiva. Criei cinco véus das cinco cores, bordados de flores em ouro, prata e pedraria, e uma tiara espetacular. 
Eu estava cada vez mais animado com a minha “profissão”, e quando me perguntavam há quanto tempo eu era estilista respondia “desde menino”, o que era verdadeiro, pois era o amadurecimento de tudo aquilo que aprendi com minha mãe...
Passei a criar joias e relógios, relógios amazônicos, exibindo folhas, pele de onça, rosto de pantera no mostrador etc. Joias com inspiração indígena, cocares de ouro e brilhantes para usar como golas etc. Joias que venderam bem.
O mundo da moda naquela época era para quem inventasse, as minhas joias eram únicas, quem fosse o possuidor de um dos meus relógios saberia que ninguém teria outro igual em todo mundo. Fui ao fabricante suíço para realizar minhas modificações no estilo, na cor, no fundo com pedrarias, e minha assinatura.  
Depois criei uma grande série de caixinhas de música, de prata com porcelana. Foram um sucesso e vendi todas. Os fabricantes já me conheciam e eu adaptei relógios nas caixas de música e em porta-joias. Eram objetos únicos.
A seguir fabriquei jarros e móveis. Meus jarros e potes seguiam o padrão amazônico, com motivos de lagos e rios que eu desenhava.
Depois revelei minhas fotos nos jarros, deixando as distorções propositais. 
Esses objetos decorativos se revelaram muito rentáveis, pois atendiam ao luxo daquelas casas elegantes. Não eram obras de arte, eu tinha consciência disso. Mas me faziam feliz e me rendiam um bom dinheiro. 
Depois eu desenhei óculos, retos, largos e de várias cores. Esses modelos eu vendi para o fabricante de óculos e foi um grande negócio.
Os fabricantes me pediram depois uma nova coleção, e eu lhes dei uma nova série de óculos, coloridos e alegres para a nova temporada.
Sim, eu começava a ficar rico.




A PANTERA 34 - ROGEL SAMUEL

Um dia, me pediram uma nova coleção primavera-verão e eu desenhei. Era a primeira vez que eu aceitava essa encomenda. Trabalhei meses e depois assisti ao desfile, anônimo. 
Foi consagrador, pois eu era diferente e logo encontrei meu lugar na chamada alta costura.
Não era no primeiro time, mas era.
No fim da apresentação, apareci rapidamente para agradecer os aplausos.  
Naquela noite sonhei com meu pai, coisa rara. Meu pai aparecia como um homem quase negro e me perguntava por que eu não queria fazer aquilo, e ganhar dinheiro. Ele não perguntava com palavras, mas com um gesto, um resmungo. -“E  então?” parecia dizer ele. Aí eu me lembrei de meu  pai tocando piano em Itacoatiara, no interior do Amazonas, sozinho na cidade, no único piano da cidade. Tocava aquela “Sonata ao Luar” de Beethoven, e lágrimas escorreram de meus olhos ao sabor da lembrança de meu pai já morto, no seu piano, tão longe, tão distante, no morto espaço de minha vida passada. Meu pai era um bom pianista. Aprendeu música em Strasbourg, onde cresceu, perto daquela catedral. Toda manhã acordava ao som dos sinos da Catedral.   
Depois daquela coleção, caí no esquecimento, mas continuei mesmo assim desenhando para  diferentes casas, graças ao sonho de meu pai,  profético, de apoio, como dizia “vá em frente”.
Depois resolvi fazer mais fotografia.  Era uma diversão. Eu sempre aprendia a cada foto. Fiz um estudo de luz e sombra em preto e branco e em cor. Fotografei corpos e objetos. Ao som das sonatas de Beethoven. Minhas fotos, reunidas, eram a “Sonata ao luar”. 
Mas o mundo girava rápido. Soube que a ditadura brasileira tinha prendido um companheiro nosso na Espanha e eu me apavorei.
Voltei a morar em diferentes hotéis por motivo de segurança, ou porque eu me sentia sempre perseguido. E tinha sempre uma boa quantidade de dinheiro vivo comigo para o caso da fuga. Talvez fosse paranoia, mas as notícias da repressão eram terríveis. Eu não viajava mais, sempre ficava em Paris, mudando de lugar quase escondido. E só.
Depois, fechei minha loja e desapareci.
Conheci a ponta dos extremos. Dos cadáveres semienterrados no alto da floresta, cujas roupas vesti, ao luxo europeu. Ali estava eu. Era esse o mistério de minha concepção de mundo e de arte. Desenhei roupas para rainhas e para índias. O meu mundo era o caos. 
Pretendia ir para os Himalaias, mas um devastador terremoto com milhares de mortos me deixou paralisado. Era um mundo em guerra. Eu me via em busca de segurança, num mundo inseguro, móvel, tinha pesadelos em que era caçado por tropas inimigas. Eu só via destruição e morte por toda parte. Tudo era um horror, tudo era a catástrofe.




A PANTERA 35.
ROGEL SAMUEL
Reencontrei Helene Reval no Metro. Eu continuava em Paris e mantinha algumas encomendas e continuei desenhando para me ocupar. Eu não podia parar, minha “vida” era aquilo. Era o que eu fazia com felicidade, com facilidade. Continuava morando em hotéis baratos, o que era um conforto para quem era só. Não frequentava a vida noturna, não ia a reuniões, nada. Vivia escondido, recluso. Desenhava no hotel, sobre a cama. Só saía para o almoço, voltava no fim da tarde, me trancava para trabalhar, até tarde. Não tinha amigos, não frequentava ninguém.  
Apesar de tudo, era feliz. Às vezes me punha a andar sozinho pelos campos e montanhas fora de Paris, pernoitava em pousadas. 
Fugindo do inverno fui para a Denia, na Espanha, onde aluguei um quarto numa casa na montanha em frente ao mar. Era um lugar alto, chamado Predreger. A vista era magnífica. Chegar em Denia era um tanto complicado, mas valeu, de Paris a Alicante e de lá num ônibus para Denia. Descia a pé e voltava de táxi para subir a montanha. Mas valeu. O mundo, lá de cima, era imenso. Eu podia morar ali pelo resto da vida.  Todos os dias, caminhava pela estrada, ia até a praia, onde era bom sentir o vento da vida livre. Em casa, desenhava. O desenho, para mim, era um prazer. Cidade pequena, quase não se via ninguém nas ruas. Poucos restaurantes, poucas lojas. Comprei um aparelho de som, discos.  
Mas voltei a Paris porque uma freguesa me encomendou um vestido. Eu precisava de dinheiro. Em Paris, num hotel, no apartamento de fundos, térreo, tinha um jardim triste, escuro. 
Foi quando reencontrei Helene Reval, no Metrô. Mas ela estava outra, mergulhada em funda, forte depressão.

No fim suicidou-se em sua casa, ingerindo uma overdose de remédio para dormir.
Senti-me culpado. 
Eu não esperava aquilo. Como um choque. Foi como se eu a tivesse matado.  


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Nas férias fui para Bournemouth. Lá aluguei um quarto numa casa que ficava longe de tudo, ao lado de um bosque cuja travessia me apavorava por escura, cheia de lama e onde havia, soltos, cães de caça que eu jurava que me iam caçar. Eram cães dos moradores ingleses das adjacências que pela manhã os soltavam. Eu temia um ataque, eu era a caça.
O dono da casa era um jovem com quem estabeleci logo uma forte relação de amizade. 
- Não tenha medo, me disse uma amiga, são cães civilizados... vai ver que nem latem...
Eu não acreditava e, enquanto estava lá, um cão atacou uma senhora inglesa. Quase a matou.
Para piorar minha estada, caiu naquele ano as piores chuvas dos últimos 50 anos... 

Mesmo assim minha permanência na Art University foi excelente. 
Nos tempos livres andava pelas praias, explorava os segredos, os portos de luxo, grandes barcos,  mansões reais.
Lá escrevi uma série de poemas que intitulei de “Poemas de Bournemouth”. 

Foi quando recebi a notícia de que tinha uma filha... uma filha minha, de quando eu era bem jovem, quase adolescente.
Foi um choque. 
Seu nome era Jatir. 
As notícias, ainda confusas e contraditórias, diziam que já era uma jovem crescida e que queria muito conhecer o pai. 

Mas me alertaram para que eu não aparecesse no Brasil, pois continuava sendo caçado pela polícia política brasileira.
- Não venha, disse-me um companheiro. Vamos tratar de tudo.
- Obrigado, eu lhe disse, ainda surpreso.
- Quer que a mandemos para você?
- Sem a mãe? Indaguei.
- A mãe já a abandonou há muito tempo, Jatir foi criada por uma família de classe média. 

Eu continuava confuso, sem saber o que fazer.

- Como eu vou saber que é minha filha? perguntei.
- Se você a vir, logo saberá, respondeu o outro. 
E assim, depois de algum tempo, com problemas e procedimentos, uma desconhecida a trouxe para Paris, e a primeira coisa que vi, que senti foi que era minha filha, sem nenhuma dúvida. 
Já tinha uns dezenove anos, morena e bela, com um sorriso no rosto e me abraçou e beijou.


A PANTERA 37.
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Eu a amei de imediato. Sem o menor cuidado ficou comigo, confiante, segurando a minha mão.
Irradiava felicidade de estar comigo. Eu nunca tinha sentido aquilo antes. Desde logo vi que nossa ligação era forte e não foi difícil reconhecê-la como filha junto às autoridades francesas.
Jatir falava muito mal o português, começou a aprender francês.
Sua educação tinha de ser especial. Eu me dediquei integralmente à sua educação e me recusava a interná-la num colégio, pois ela não saía de perto de mim. 
Contratei uma preceptora. Ela não gostou.
- Você me ensina, disse ela.
Madame Adele também se afeiçoou com ela e lha dava presentes, foi sua madrinha, o que me dava certa segurança de que, se me acontecesse algo, ela a tomaria sob sua proteção.
Mas Jatir sabia defender-se. Tinha desenvolvido um sentido de sobrevivência.
Um dia, perguntou como tinha sido minha participação na guerrinha. Eu lhe disse que não falava disso para ninguém. 
Finalmente consegui uma escola de alunos especiais que falavam várias línguas. Eram jovens de diversas nacionalidades, filhos de forasteiros que viviam em Paris. Havia russos, africanos, hispano-americanos, indianos etc. Ali as aulas eram livres, cada aluno assistia ao que queria, e podia, e havia várias atividades e laboratórios.
Jatir gostou. 
Ela precisava socializar-se. Naquele colégio misto havia aulas de música, dança, línguas etc. 
Jatir progredia. E ficava mais bela.

A PANTERA 38
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Comecei a fotografar Jatir. Fiz dela o meu principal modelo fotográfico. O estudo começava por Jatir nua em várias atitudes. 
Ao longo do livro, pois seria um livro, as fotos iam do preto e branco até a cor. 
Levei um ano fazendo isso, pois não tinha pressa. 
Jatir gostava e era bela e exótica, selvagem e animal, ingênua e pura, narcisista e erótica, Jatir era tudo.
Ela era realmente elegante, sabia andar, e tinha um lado animal que lembrava Jara.
Mas o projeto não saiu do papel.
Então, Madame Adele nos convidou para uma recepção em sua mansão em Biarritz. Fomos para um pequeno hotel, às custas de Adele. 
Eu nunca tinha ido àquele hotel, frente ao mar, hotel muito velho, com um salão cheio de espelhos e lustres de cristal. Os garçons também velhos nos tratavam com muita gentileza, enquanto passeávamos pelos jardins, jogávamos na sala de bilhar, ficávamos na varanda, no restaurante e, às vezes, caminhávamos pela estrada até uma pequena praia, onde pegávamos sol. Havia poucos hóspedes ali. Lugar de repouso, de silêncio, de contemplação. 
- Quantos dias você quer ficar aqui? – perguntei a Jatir.
- Não sei, respondeu ela. Poderia morar aqui... 
- Você acha?
- Sim, respondeu, preguiçosamente. Tem tudo aqui que eu gosto, sol, mar, floresta... 
O horizonte se estendia ao infinito. Eu contemplava o mar e sonhava. Gaivotas voavam em direção ao sol. Alguns barcos. Velas brancas.
Voltamos para o quarto, onde adormeci.
No dia seguinte, fomos à mansão de M. Adele. Ela queria dois novos vestidos, e um casaco. Eu discuti com ela sobre o que ela queria, com a prancheta nas mãos. De vez em quanto ela sorria para Jatir, que olhava tudo. Por fim, ela aprovou e renovou os convites para a recepção. Ela queria hospedar-nos em sua casa, mas preferimos o hotel. 
- Por que não ficam aqui? – perguntou ela.
- Por privacidade. 
- Então, vocês podem usar esta casa quando estiver vazia. Às vezes passa o ano todo sem ninguém, além dos empregados...
- Ótimo, aceitamos a boa oferta, respondi.
E ela foi chamando o mordomo para dar a ele logo essas ordens...
- Essas pessoas vão usar a casa na minha ausência, Franz!



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Minha situação financeira se complicou quando M. Adele adoeceu, ficou hospitalizada na França e retirou-se ao seu apartamento em Paris, onde eu a visitava. 
Perdi minha principal cliente.
- Quando vocês vão para Biarritz? – um dia ela perguntou, do leito.
E fomos nós. 
O mordomo Franz nos esperava na estação com um dos carros antigos da patroa, mas em estado de novo. 
Jatir não gostou da casa:
- Muito triste, sinistra, ela disse.
Havia algo no ar que fazia dela um espaço maldito. Por isso, contratei um padre para abençoá-la. Aos empregados disse que o padre estava rezando pela saúde da patroa e eles aceitaram. No fim, foi rezada uma missa no oratório antigo de M. Adele.  
Franz, o mordomo, nos perguntou um dia:
- Quando os senhores vão usar a piscina? Avise-me com antecedência.
E assim resolvemos experimentar. 
Como Jatir adorou o mar de Biarritz, alugamos um barco e assim passamos a navegar por ali, sem ir muito longe.
Eu descansava à tarde até ouvir a voz de Franz:
- O jantar está servido.
Descíamos para o jantar, felizes, e aos poucos aquela velha casa ganhou um pouco de vida e alegria. 
Era uma casa grande, em frente ao jardim público, com salas e vários quartos, mas nós nos limitávamos aos nossos aposentos perto da escadaria e às salas e jardins do primeiro piso. O teto muito alto, lustres antigos de cristais de luzes fracas e distantes. Os móveis com uma elegância discreta e os quadros de paisagens francesas do século anterior. 
Bonitos e bem cuidados os jardins. Descobrimos a piscina suja que Franz mandou limpar para nós e disse:
- Essa piscina nunca é usada...
Mas nós usamos. Quase diariamente. À noite íamos aos bares da vizinhança beber uma cerveja, sempre excelente. Assim nossa vida era boa, e lá ficamos por vários meses. A grande casa era só nossa.

A PANTERA 40.

Depois, d. Adele morreu e nos deixou uma pensão em dinheiro mensal e um apartamento em Paris, além da ordem expressa de que eu e Jatir tínhamos o direito de usar a sua casa em Biarritz sempre que quiséssemos. Além disso,  nos deixou sua grande coleção de vestidos, capas e sapatos... uma fortuna.
A Maison Riviere pouco precisava de mim, a grande moda entrava em decadência, assim mudei-me para Biarritz, com minha filha.
Ali ainda era possível encontrar algumas clientes milionárias turistas ou que ali moravam.
Depois de alguns anos, desde que a situação política mudou, pensamos, Jatir e eu, em voltar para o Rio de Janeiro.
Mas eu já não tinha o apartamento, sequestrado pela repressão. Meus amigos estavam mortos, ou desaparecidos. A vida no Rio de Janeiro, mudada. Não tinha emprego, o mundo mudou. 
Por isso continuamos em Biarritz, na casa da falecida amiga M. Adele, casa nunca usada por seus herdeiros, à nossa disposição.




41. A PANTERA

Um dia uma senhora americana me procurou indicada pelo gerente de um dos hotéis onde eu tinha postado meu endereço.
Queria um vestido e já trazia nas mãos o corte da fazenda.
Tirei as medidas, cobrei caro pelo trabalho, chamei duas costureiras minhas conhecidas e me pus a trabalhar.
Eu tinha 24 horas mas no dia seguinte o vestido estava pronto porque usei uns apliques de M. Adele que tinha trazido comigo com fios de ouro e pequeninas pérolas e cristais. Eu tinha todos vestidos de M. Adele comigo e aquilo valia uma fortuna.
A roupa ficou deslumbrante e minha cliente se surpreendeu. Não esperava tanto.
Ela era uma mulher magra, rosto um pouco sofrido, pálida mas muito simpática. Nós nos demos muito bem.
Mary tinha herdado de seu pai um conglomerado de indústrias e patentes, mas vivia reclusa em Walden, ao Sul de Nova Iorque.
Cuidei do seu penteado, da maquilagem e dos sapatos. 
Mary Simpson tinha sido convidada para uma festa no palacete de alguém ali mesmo em Biarritz, e como não trazia nenhuma roupa apropriada na mala me procurou.
Mary na realidade só usava calças compridas e tênis naquela viagem. Mas estava radiante de se ver novamente bela, elegante, e se mostrou muito agradecida. 
Eu não fui à festa, mas no dia seguinte Mary me telefonou convidando-me para almoçar. Fomos, eu e Jatir.
O almoço foi muito divertido, bebemos champanhe e nos conhecemos melhor.
Falei de minha vida, e ela me contou seus fracassados casamentos. Era uma mulher de  sessenta anos e as marcas de sua vida estavam estampadas na face de sua solidão. Não tinha filhos. Todos os homens que conhecera eram interessados em sua fortuna.
Mary me convidou para trabalhar com ela nos Estados Unidos e eu fiquei de lhe dar uma resposta.
Vi logo que uma bela roupa logo muda o humor de uma mulher.

42. A PANTERA

Não fui logo para os Estados Unidos, mas passei a fazer roupas para Mary periodicamente. E ela me incluiu no seu círculo de amizade, que era grande, e voltei a ter  clientes ricas. Frequentemente recebia pedidos, e em Walden abri um atelier temporário e depois em Paris.  
Jatir gostou dos Estados Unidos. Logo arrumou um namorado americano, Frank, e se foi para Los Angeles.
Depois, também fui para lá.
Jatir e Frank moravam na casa de um amigo ausente, num bairro nobre, em West Hollywood, perto do Sunset Boulevard. A casa tinha uma ampla sala, dois quartos, sala de almoço, boa cozinha, lavanderia e até um pequeno quintal. O dono, amigo de Frank, diretor de uma multinacional, morava na Argentina. Frank ficava ali para conservar a casa longe dos assaltos.
Minha estada em Los Angeles foi muito boa. 
Na realidade, é uma cidade para o prazer e para as artes. 
Íamos a Malibu e Santa Mônica, onde Frank tinha amigos. Ali, mesmo que você não seja rico, há muita coisa a fazer e ver.
Eu não busquei, mas acabei achando emprego em uma loja de moda. Eu tinha um currículo a mostrar, mas foi por acaso que entrei naquela casa e em conversa com o gerente fui facilmente introduzido no mundo da moda de Hollywood. 
Na realidade, as famosas atrizes eram muito mal vestidas, vestiam-se de um rico mal-gosto.
E eu, formado na alta costura parisiense, não tive dificuldade nenhuma em trabalhar ali.   
Não era famoso, mas fazia melhor. Cobrava caro, caríssimo, atento aos detalhes, aos bordados e às rendas.
Depois de alguns anos morando em L.A., Jatir separou-se do namorado, a situação política brasileira mudou e  Jatir e eu resolvemos voltar a morar no interior do Amazonas...




43. ÚLTIMO CAPÍTULO DE “A PANTERA”



Eu não sei há quanto tempo voltei para cá, perdi a consciência do tempo e do espaço, nessa letargia, de uma calma, apática tristeza, no meio dessas imensas árvores, por onde os verdes pássaros passam com gritos, e os silvestres silvam fortemente.

Em minha frente o lago verde se estende, largo e profundo, sinistro, sem nome, imóvel, como uma toalha parada, no ar pesado, no silêncio morno, no calor úmido, no mormaço da tarde.

Sinto-me velho, talvez eu esteja aqui há muitos anos, o mundo desapareceu, e mudou, e se fechou. O tempo é morto, as lembranças mortas, o espaço morto, o verde incompreensível morto. Por que de nada me lembro? Onde estou? Por que de nada me não quero lembrar? Pouco me ausento da casa, estou só no meio dessa floresta imensa, nesse universo formidável, silencioso, soturno, e assim me deixo morrer, os sonhos se confundem com sons que vêm no seio daquele silêncio maciço, daquele rumor dos ventos que uivam, como monstros noturnos, que engolem a noite.
Os amigos foram-me resgatar do fundo da floresta para um hospital, e finalmente estou em Paris, onde a grata surpresa de saber que apareceu um novo testamento de M. Adele e que eu recebia mais algumas coisas, dinheiro, etc. Senti que eu tinha sido seu filho querido. Senti a falta de M. Adele.


44.
Quando chegou da França, Jatir conheceu um amigo carioca chamado André e veio morar com ele em Copacabana no Rio de Janeiro.
Jatir era muito jovem quando entrou numa escola de dança contemporânea e, falando um excelente francês, ainda dava aulas num curso especializado em português para estrangeiros.
Ela e André moravam num apartamento conjugado pequeno, e Jatir pagava o aluguel com as economias do pai.
Um dia, André chegou cedo e disse bruscamente:
- Eu tenho uma coisa para lhe contar...
Seus lábios tremiam, e ele estava pálido.
- Sim, o que é? – falou Jatir.
- Vou-me casar!
Como não esperava aquilo, Jatir parou no meio da sala.
- Como? Com quem?
- André nem respondeu, foi até o guarda roupa, tirou suas roupas, jogou numa bolsa e se retirou sem nada dizer...
Depois do rompimento com André, Jatir ficou meio tonta e passou alguns dias sem sair de casa.
Pedia comida pelo telefone que nem sempre comia.
Mas um dia recebeu o telefonema do pai, que ela não sabia onde estava.
- Pai, preciso de você... – disse ele. Venha para cá, disse-lhe o pai, de Paris. Vou mandar-lhe a passagem...
E ela partiu em busca do pai.
O pai, já muito idoso, alegrou-se com sua presença.
Na realidade, Jatir estava até mesmo mais bonita,  pois se parecia com uma oriental: estatura mediana, magra, ágil, bailarina, o olhos puxados, cabelos muito negros, muito lisos, os óculos estilizados, a bijuteria sofisticada, a roupa justa e negra... Jatir não simplesmente andava, mas bailava pelo quarto...
 - Vou cuidar de você, disse a filha.
- Eu não estou doente. Estou velho.
E riu-se.
Jatir irradiava energia, vitalidade.








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